23/07/16

A caixa de pão

Na região próxima a décima e a nona, há um beco entre um estacionamento e um pequeno prédio. Diferente de outros becos da cidade, esse está livre de carros e transeuntes.

De fato, parece nunca haver alguém nesse beco. Nunca há um carro passando por ele para evitar o tráfego, ou adolescentes procurando por um local mais reservado. Apesar da presença de galpões e espaço para estacionamento, o beco é um local bastante desolado.

ThebreadboxSe você passar por esse beco no inverno, você perceberá um odor de carne podre vindo de uma lixeira, e poderá ouvir algo que soa como ratos, vindo de dentro dela. Mas se você olhar para dentro da lixeira, você encontrará uma pequena caixa de madeira, feita para guardar pães. A caixa estará em perfeitas condições, apesar de não ter sido manuseada por décadas.

Se você abrir a caixa, o que você não deveria fazer sob nenhuma circunstância, descobrirá que ela contém a sua própria cabeça decepada. A sua cabeça lhe contará dois segredos e uma mentira, e logo depois, ela morrerá.


22/07/16

Não inveje os mortos

Ela está sentada na minha frente, olhando ao redor da sala. Ela é velha, com quase 80 anos talvez, mas se senta com a postura de uma mulher mais jovem. Seu cabelo é branco e encaracolado, que cai como um chapéu sobre sua testa. Seu peito é carregado com bijuterias. Os diamantes e perolas falsos se penduram como frutos numa arvore enrugada que é seu pescoço. Ela esta sorrindo, seus olhos vagando pelos inúmeros rostos no bar. 

Eu fecho minhas mãos sobre a mesa. “Por que você não está me ouvindo?!” 
Nós estamos sentadas assim durante quase quatro minutos. Eu a vi quando entrei e a reconheci imediatamente a partir da foto online. O nome dela é Angelina Bodden. Seu site se gaba de que ela pode ver e se comunicar com os mortos. Normalmente eu não acreditaria em tal coisa, mas a miríade de comentários de clientes satisfeitos me levou a arriscar. Ela cobra $100 a hora, então ficar aqui sentada em silencio não estava no menu para mim. 

Ela estava em uma cabine na parte de trás do bar. Eu escorreguei para o assento na frente dela e disse: “Você é a Angelina? Eu sou Etta, aquela que te enviou o e-mail.” 
Angelina não respondeu. Ela quase nem olhou pra mim. Tentei novamente, “Você pode me ouvir? Meu nome é Etta.” 

Ela não demonstrou ter me visto. Ela apenas sentou do outro lado da mesa, os olhos vagando de rosto em rosto. Eu tentei me inclinar mais na direção dela para falar com ela. Eu tentei gritar. Mas ela se recusa a responder. Eu estava prestes a me levantar da mesa num acesso de raiva quando um homem mais velho se aproximou da mesa. Ele é baixo e magro. Ele parece particularmente simples perto de Angelina, que está enfeitada com joias. 

Ele se senta ao lado dela e beija sua testa. Ela se inclina em direção a ele e pergunta, “Eddie, tinha fila para o banheiro?” 

“Não pergunte a um homem velho sobre seus negócios,” ele respondeu numa risada. 
Angelina acaricia seu braço. “Tem uma jovem sentada na nossa frente?” 

Ele olha para mim. Ele leva alguns segundos para me avaliar. Eu me encolho para longe do seu olhar. “Sim. Ela tem um cabelo vermelho e esta usando um vestido roxo.” 

“Excelente.” Angelina finalmente se vira para mim. “Me desculpe querida. Eu não falo com ninguém a menos que Eddie os verifique para mim.” 

Eu semicerro os olhos. “Verifica?” 

Ela ri. “Sim querida. Eddie me diz se a pessoa está morta ou não.” 

Me sento para trás, um pouco atordoada. Eu ainda não sei se ela é legitima. Mas tenho que admitir que, se tudo isso é um show, esta funcionando. Eu limpo minha garganta. “Então, você pode ver gente morta?” 

O rosto de Angela é muito gentil. Ela esta segurando a mão de Eddie sobre a mesa. Ambos usam grandes anéis de cobre. Eddie está calmo. Ele age como se isso não fosse novo para ele. Angelina diz: “Eu os vejo e os ouço também. Eles aparecem pra mim assim como os vivos. Por isso que Eddie é tão útil.” 

Ver eles juntos é bastante agradável, na verdade. Meu namorado Miles e eu estamos juntos há um ano. Eu vejo estes dois e espero que algum dia possamos ter um amor como esse. Eu puxo uma pasta da minha mochila e deslizo ela ao longo da mesa. “Eu acho que minha casa é mal-assombrada”. 

Angelina sequer abriu a pasta. “Eu tenho certeza que é. Quase todos os edifícios são assombrados, embora eu normalmente não use esta palavra. Eu gosto da palavra ‘habitada’. Os fantasmas geralmente habitam edifícios onde morreram, embora alguns espíritos voltem a locais onde algo traumático aconteceu em suas vidas.” 

“Bem, eu preciso que esse fantasma vá embora.” Eu abri a pasta para ela. “Houve uma série de assassinatos na década de 70. O assassino Picasso. Você já ouviu falar dele?” 

“Oh, sim.” Angelina se inclina para olhar atentamente os documentos. Alguns são artigos de jornal, outros são fotos. Uma delas é uma fotografia que eu tirei de um corredor na minha casa. No canto você pode ver a metade inferior de um braço e uma mão sando do nada. Nenhuma dessas coisas parece incomodar Angelina. Ela continua a sorrir. “Ele nunca foi pego, se eu estou lembrando corretamente. Você acha que o assassino está em sua casa, querida?” 

“Não, não o assassino. Uma de suas vítimas.” Eu apontei para um artigo de 1974. “Eu acho que é Veronica Sinclair. Não tem o endereço dela, mas menciona meu bairro. Ele a matou em sua própria casa.” 

Angelina levanta a cabeça. “Você viu ela?” 

Eu franzi um pouco a testa. Eu me sinto embaraçada. Apesar de eu ter esperado por meses para investigar essa assombração, e ter falado sobre isso com o Miles durante horas, eu ainda me sinto como uma criança com medo de algo debaixo da cama. “Sim. Eu vi ela varias vezes. Ela só aparece quando eu estou sozinha e apenas por alguns minutos. A aparência dela é… aterrorizante. A primeira vez que eu vi ela eu corri para fora da casa gritando.” 

Aquela primeira vez ficou marcada em minha memoria para sempre. Eu estava deitada na banheira, bolhas fazendo cócegas nos meus pés. Miles estava chegando em meia hora e eu queria algum tempo para cuidar de mim mesma. Eu estava ocupada com a gloriosa sensação da agua morna. Mas quando a porta do banheiro começou a abrir, eu me empertiguei. Deve ser o vento, pensei. Eu não devo ter fechado a porta direito. Mas então eu vi a mão. Ela alcançou a moldura da porta, como se estivesse tentando se segurar. Mais de seu braço apareceu na porta e então eu percebi que a mão estava no lado errado. A palma estava virada para cima. Havia marcas em volta do pulso que indicavam que a mão havia sido removida e, em seguida, costurada grosseiramente de volta de cabeça para baixo. 

Eu esfreguei meus olhos vigorosamente, com a certeza de que eu estava apenas um pouco tonta das bolhas. Quando eu reabri os olhos a mão tinha desaparecido. Deixei escapar um longo suspiro. Aliviada, eu afundei na banheira. Mas antes que eu pudesse relaxar, ouvi uma voz atrás de mim. “Corra.” 

Eu me virei e vi ela. Veronica. Ela estava completamente nua, curvada. Ela ficou em um pé. O outro pé havia sido removido e agora pendia do seu peito. Seus peitos tinham sido transferidos para seu estomago. Seu nariz tinha sido removido e um olho estava amassado. Eu não vou nem descrever a aparência de seus órgãos genitais. Eu gritei. Ela não foi afetada pela minha voz. Ela tossiu através de seu longo cabelo ruivo. “Corra”, ela sussurrou novamente. 

Espantei o medo e corri para fora da banheira. Eu corri para fora do banheiro coberta de bolhas. Eu voei através da porta da frente gritando. Que visão eu era. Uma mulher nua histérica com bolhas nos cabelos. Uma vizinha correu em minha direção e me levou para dentro. Ela me deu um pouco de chá e me perguntou o que tinha acontecido. Mas eu não disse a ela. Eu ainda não tinha certeza do que vi. Eu pensei que eu estava louca. A vizinha me deu um roupão e eu voltei para casa uma vez que Miles chegou. Ele ajudou a me acalmar, mas o medo tinha feito sua casa no meu peito. 
Angelina parecia ler essas memórias no meu rosto. Ela estendeu sua mão e tocou a minha. Sentir sua pela fina é estranhamente reconfortante. “Você está realmente com medo dessa mulher, não é?” 

“Sim.” Eu percebo que eu estava segurando a minha respiração então solto ela lentamente. “Eu acho que ela quer que eu saia da casa. Ela fica dizendo 'Corra’.” 

O comportamento calmo de Angelina não se altera de forma alguma. “Ela lhe causou algum mal?” 
“Não. Ela nem chegou a me tocar. Ela só vagueia pela minha casa, me assustando pra caralho.” Eu mordo meu lábio. “Ops, perdão pelo palavrão.” 

Angelina ri. “Oh querida, eu ouvi coisas muito piores. Uma mulher no bar está gritando obscenidades para o barman nesse momento. Eu acho que se ele tivesse lhe dado o turno da noite ela nunca teria sido assassinada.” Ela é tão calma sobre isso, até mesmo jovial. 
Eu me virei para olhar para o bar mas é claro que eu não vi nada. O barmen parece um pouco cansado, mas com certeza não há nenhuma mulher gritando. Eu suspirei. “Por favor, apenas me diga que você pode me ajudar a me livrar dela.” 

“Eu posso tentar.” Ela arrumou suas joias. “Vou precisar de um punhado de sal, de sujeira, de ossos e de cabelo.” 

“Onde diabos eu vou conseguir isso?” 

“Você vai descobrir isso, querida.” Ela sorri. É o sorriso de uma mulher que já fez isso uma centena de vezes antes. É o sorriso de uma mulher que não teme a morte. “Vou encontrá-la na sua casa amanhã a noite.” Eddie bateu em seu ombro. “Oh, claro, Eddie vai estar lá também.” 

“Claro”, sussurrei. 

Como diabos eu vou conseguir um punhado de cabelo e de ossos?

(Essa é uma história com um final "aberto", gostaria que vocês comentassem a interpretação de vocês.)

Fonte:: Ez Misery


21/07/16

Série Runners (PARTE 6) - Antes: Pouquíssima Autonomia

ATENÇÃO : ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE. 
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(PARTE 1) - (PARTE 2) - (PARTE 3) - (PARTE 4) - (PARTE 5)


Quando postei na internet sobre meu distúrbio do sono, recebi uma mensagem quase instantânea de um homem chamado Dr. Yau. Ele tem um consultório na cidade e me ofereceu uma consulta de graça. Eu aceitei. Quando nos encontramos, ele parecia mais curioso do que preocupado, principalmente quando contei que não dormia a mais ou menos um mês depois de ter uma reação alérgica com alguma coisa que meu parceiro colocou na nossa janta. Mesmo quando contei que estava tendo alucinações com coisas que eram impossíveis, não detectei um sinal de preocupação em seu rosto. Ao contrário; o que percebi foi um tipo de animação.

Fiquei com a sensação que eu era um paciente o qual ele estava esperando faziam anos; algo divertido, diferente dos dias comuns e entediantes recheados de neuroses, distúrbio alimentares e depressões. Como você lerá essa carta na nossa próxima sessão, Doutor Yau, gostaria de saber se isso é verdade. Prometo que não vou ficar chateado.

De qualquer forma, eu deveria escrever sobre minhas alucinações e quaisquer outras experiências extrassensoriais que eu tiver, assim Dr. Yau poderá avaliar essas informações e me ajudar melhor. Isso deve me dar uma nova perspectiva nas minhas experiências. Não sei como. Já falei que a única rasão de eu ter ido procurar ajuda é porque Stewart se tornou frio e distante desde que isso começou. 

Bem, acho que é aqui que eu deveria começar a escrever sobre minhas alucinações. Já peço desculpas antecipadas por parecer um louco pirado. Eu sempre fui a pessoa sã da família, então isso tudo é novo para mim.

Não importa onde eu estou. Pode acontecer em casa, no trabalho ou no carro. Quando a alucinação começa, minha visão fica embaçada como se eu estivesse bêbado ou tonto, mas não fico enjoado. Minhas pernas começam a ficar cansadas. Me lembra aquela sensação de quando eu estava em uma corrida na educação física e estava perto da linha de chegada. É aquela sensação desajeitada e tremulante da exaustão depois de um exercício intenso. 

A próxima parte é meio estranha e não tenho certeza se vou conseguir explicar direito. Uma coisa engraçada - na faculdade eu fiz uma cadeira opcional de filosofia e era entediante pra caramba. Consegui passar por um fio, mas não conseguia ver algum lugar ou motivo na vida real onde poderia aplicar o que havia aprendido lá. Entretanto, agora, estou usando-a para conseguir falar sobre minhas alucinações, e acho que parte disso é relacionada a aquelas aulas. Sério, se liga.

Quando uma começa, eu me divido. Não fisicamente, claro, mas minha personalidade vai em duas direções diferentes. Há uma parte que continua agindo como eu sou normalmente; O Todd Nilsson de sempre, que continua seguindo como se não estivesse tendo nenhuma alucinação. Mas também temos o Todd Nilsson que está tendo alucinações, que está sempre correndo. O eu corredor se move como se estivesse possuído. E é aí que a filosofia entra. É como se eu tivesse um impulso teológico à correr. Aquele eu - o eu corredor - não há motivos para viver a não ser dar o máximo de passos que puder até que suas pernas estejam em fiapos. É para isso que foi designado. Esse é o seu propósito.

As alucinações vem crescendo progressivamente desde que começaram. Quando estava no meio de uma, ninguém percebia. O eu não-alucinado continua a conversar com as pessoas normalmente e a agir como um banqueiro típico, tosco, e entediante como eu. O problema é que eu não sou eu quando está acontecendo. Nenhum dos Todds sou eu. O eu verdadeiro;  o meu antigo eu - o eu de antes de ter a reação alérgica - fica observando tudo isso de outra perspectiva. De algum lugar obscuro. Não consigo observá-los sempre, mas quando acontece, consigo controlar as partes do meu corpo até que a tarefa seja cumprida. 

Agora, penso que estou no controle mesmo que a alucinação estivesse no comando quando digitei "Eu sempre fui a pessoa sã da família". Um canto da minha mente estava a correndo a toda velocidade pelas florestas, desertos e cidades. Essa parte de mim olha para baixo e vê pernas de palito cobertas de sangue. Observo minhas mãos tocando a carne, arrancando um pedaço e jogando no chão. A outra parte da minha mente me observa enquanto eu digito essas palavras, com sangue brilhante em meus dedos. Consigo sentir as teclas grudando em meus dedos enquanto pressiono-as. Estou pressionando as teclas tão furiosamente quanto estou correndo na alucinação.

Essa é a primeira vez que controlar minha comunicação enquanto estou dividido, sempre fui um observador enquanto o não-corredor falava e agia como eu. Entretanto, agora, todos os três estão aqui como um. O corredor está correndo. O eu antigo está digitando. E o outro, o não-corredor, está observando. Sei que o sangue em meus dedos é culpa dele. 

Estou digitando enquanto o não-corredor está sob controle dos meus olhos e pescoço. Fui obrigado a olhar em direção de um corpo. É o corpo de Stewart. Parece que ele está morto a mais de um mês. O não-corredor não me deixa expressar surpresa ou horror. 

Buracos inchados do tamanho da circunferência dos meus dedos, que expelem pus, cobrem seu corpo. De dentro de cada um desses, cresce um grupo de cogumelos finos e compridos. São os mesmos cogumelos os quais eu apresentei a reação alérgica quando Stewart cozinhou com eles. Os mesmos que desencadearam minhas alucinações. Posso ver, bem perto do seu crânio esmigalhado, a panela que ele usou para prepará-los.

O não-corredor está me fazendo re-ler a primeira parte desta carta. O nome que vejo - Dr. Yau - não faz sentido nenhum para mim. A carta diz que eu já o encontrei e que ele me instruiu a escrever isso, mas não tenho nenhuma memória sobre esse encontro. O não-corredor balança minha cabela em desacordo e direciona meu olhar para o corpo recheado de cogumelos. 

O outro eu, o corredor, parou de se mexer. Ele está olhando para um vasto campo cheio de carne e cinzas. Enquanto observo, começo a sentir minhas pernas tremerem e enfraquecerem. Minha mão esquerda começa a cavocar na pele do meu peito. O não-corredor - meu eu que se parece comigo - está me instruindo a me mexer.

Agora, enquanto finalizo essa carta, estou carregado de um senso de propósito. Eu não preciso mais desse terceiro eu. Não preciso do antigo eu. Só há duas partes reais: o eu corredor e o eu não-corredor. Dr. Yau, seja lá quem você for, espero que essa carta seja útil para você. Os últimos resquícios do meu antigo eu estão nesta carta. Temos que ir agora. Ele tem que ir. Eu tenho que ir.

Tenho que correr. 
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EM BREVE: "Série Runners (PARTE 7) - Antes: Pouquíssima Coragem"

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