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2 de mar de 2015

Skype

Eu tenho certeza que você conhece o Skype. É um programa grátis que você usa para conversar com qualquer pessoa, por webcam ou microfone. Eu usei o Skype para manter contato com alguns amigos, já que a maioria de nós estava indo para a faculdade.

Semana passada eu estava conversando com Annie, uma garota que conheci na escola. Nós acabamos de nos mudar para nossos novos apartamentos, ambos estamos solteiros e o primeiro semestre ainda não havia começado – o que significa muito tempo para conversar. Normalmente nós conversaríamos pelo menos uma vez ao dia.

Os assuntos que nós conversávamos não eram tão interessantes: Ela havia comprado fones novos, eu assisti A Princesa Prometida pela primeira vez. Mas isso não era sobre o assunto, era apenas legal ter alguma companhia familiar para conversar, sabe?

Enfim... Era uma manhã de terça-feira e eu estive fora na noite passada, e ainda podia sentir o efeito da ressaca... Mas fui acordado com o som da chamada do Skype, me xinguei mentalmente por ter deixado o notebook ligado e levantei da cama massageando as têmporas.

“Hnnhg, oi?”

Meus olhos estavam doloridos e eu tive que lutar para me concentrar e mantê-los abertos, a luz do monitor parecia muito mais forte. Annie estava sorrindo e arrumada, exibindo seus novos fones de ouvido. Ela acenou para mim levemente, e eu tentei responder com um sorriso.

“Olha só, quanta animação.” Ela disse.

“Você deveria ter me visto noite passada, meus movimentos na pista deixaram todos no chão.”

“Isso não me impressiona... Ei, você não tem um encontro com o seu tutor hoje?”

Eu olhei para meu calendário, mas a tinta da caneta parecia correr pelo papel, então eu presumi que ela estava certa, e imaginei sair pela manhã, qualquer raio de sol por minúsculo que fosse estava fazendo meus olhos latejarem.

“Ah, que se dane,” Eu murmurei. “E você, quais são os planos para hoje?”

“Esperando uma ligação da Erin. Ela viajou ontem, deixou apenas uma carta na mesa dela, dizendo que ia visitar a família.”

“Quem é Erin mesmo?” Eu perguntei, sério. Sabe como é, seus amigos falam demais dos outros amigos e você acaba não lembrando quem é quem. Annie fez uma careta.

“Minha “vizinha”, o quarto dela é em frente ao meu. Ela simplesmente desapareceu, quer dizer... Isso foi há um dia, mas eu estava pensando em dar uma ligada para os pais dela, só para saber se ela está bem.”

Eu dei de ombros. “Melhor prevenir do que remediar, não é?”

Antes que ela pudesse responder ouvi um som de alarme, ela começou a falar várias coisas que foram abafadas pelo barulho e eu cobri minhas orelhas. “O que você disse?”

“Eu disse: É o alarme de incêndio! Eu vou lá fora só por um momento ou a supervisora vai encher muito meu saco.”

“Que horas eu posso te ligar?” Eu disse, falando o mais alto que pude, mas sem gritar. Minha cabeça ainda estava doendo.

“Não se preocupe, só vou ficar lá por no máximo cinco minutos, vou deixar o Skype aberto.”

E depois de dizer isso, ela levantou, colocando os fones na mesa e saiu do quarto. Após alguns minutos o alarme cessou.

E então a porta abriu.

Não era Annie, no entanto. Estava usando um surrado terno velho e azul; um chapéu e uma máscara feita de algum bode ou ovelha, mas meus olhos foram atraídos pelas mãos: Uma luva de borracha que parecia ter algum tipo de zíper... Eu podia imaginar essas luvas em mãos açougueiros ou pessoas que saem para caçar.

Por alguns segundos eu apenas sentei lá e fiquei me perguntando se esse era algum tipo de brincadeira que a Annie estava fazendo comigo, mas depois de alguns minutos analisando a figura, parei de pensar e resolvi fazer algo.

“O que você está fazendo? Quem é você?”

A figura não me respondeu, não podia me ouvir de qualquer jeito, os fones da Annie ainda estavam conectados no notebook. Então, ele apenas ficou lá, observando o quarto. Alguns momentos depois, começou a se aproximar da mesa enquanto eu passei a mão na minha, procurando meu celular. Eu precisava avisar Annie!

Selecionei o número dela, não tirando meus olhos da tela nem por um momento. E ele parecia me olhar de volta, quase penetrando a tela.


Conectando........

Click.

Chamando........


A figura mascarada congelou. E então, calma e lentamente esticou sua mão para o espaço fora da câmera. Eu tentei me esticar e enxergar, mas era impossível.

E então eu vi.

Estava segurando o celular da Annie – ela havia deixado na mesa.

A figura virou sua cabeça para o lado, me jogando o que eu chamaria de “olhar de piedade” antes de ignorar minha ligação e colocar algo em cima da mesa de Annie. Eu vi por apenas um momento, mas parecia um envelope.

A figura andou até o closet dela e abriu a porta, se esgueirando dentro do local um momento depois, tentando se encaixar. Por um segundo, pareceu hesitar, olhando para a webcam e encontrando meus olhos, por um momento vi sua boca e seus dentes, que pareciam esboçar um sorriso.

E então fechou a porta do closet.

Eu olhei para meu celular, eu precisava chamar a polícia, não havia duvidas, mas assim que disquei o número percebi o quão estúpido soava aquilo. A cidade de Annie estava a mais de 3000km de distância da minha, eu não poderia ajudar.

Disquei o número mesmo assim.


Conectando........

Click.

Chamando........


“Emergência, em que posso ajudar?”

“Ah sim, eu preciso relatar algo—”

Não pude completar a frase.

Não pude completar a frase porque vi Annie abrindo a porta e entrando no quarto correndo. O cabelo dela estava molhado por causa da chuva e ela sorria enquanto se aproximava da webcam. Eu gritei o mais alto que pude, ainda ignorando a dor de cabeça que senti, pedi pra ela correr e senti lágrimas quentes descendo pelo canto dos meus olhos. Ela não me escutava!

Ela se sentou e pegou os fones de ouvido, e enquanto eu gritava a porta do closet se abria.

“Senhor, em que posso ajudar?”

“Senhor, o que você precisa relatar? Você está machucado?”


Senhor?”

Eu achei sua última postagem

Eu comecei a pesquisar algumas coisas na internet (e com pesquisar eu quis dizer usar o Google) e achei alguns posts em fóruns. Ele usava o Nick de “BenjiMCFC93” e era bastante produtivo – basicamente só discutia alguns tópicos nos fóruns e compartilhava memes, mas tem um comentário que chamou minha atenção.

Eu acho que foi o último post antes dele desaparecer, e – nossa! Eles ao menos tentaram questionar o pai dele? Eu não consigo achar nada nos arquivos que mencione o K***.


/// BenjiMCFC93, comentou em 28 de Agosto:

Então, eu estou na casa do meu pai. Eu perguntei se podia usar o notebook dele, porque sinceramente, não tenho nada melhor para fazer. Ele disse que sim e eu vim para o escritório dele, abri o notebook e um navegador já estava selecionado (EU JURO!) com alguns e-mails abertos. Eu sei que eu não deveria ter lido, mas eu nem sabia que meu pai estava frequentando o terapeuta, então eu acho que só fiquei preocupado com ele e queria saber se estava tudo bem. Eu realmente queria não ter lido!




Assunto: Sua primeira sessão


Oi K****,

Eu espero que você tenha conseguido tirar proveito da nossa primeira sessão, apesar dos problemas que tivemos na hora de vocalizar suas memórias e aflições daquela época. Não é incomum que as pessoas não se sintam confortáveis o suficiente para se abrir sobre experiências traumáticas – isso leva tempo. Mas eu acredito que eventualmente você vai achar ótimo falar com alguém pessoalmente. Não se sinta perturbado!

Você está no controle. Nós vamos escolher uma forma de abordar isso como você quiser.

Att,

R****




Re: Sua primeira sessão


R*****,

Eu voltei pra casa me sentindo um pouco frustrado, para falar a verdade. Eu não sei o que eu esperava de mim, ou da situação toda, mas eu achei que seria fácil falar sobre o assunto.

Olha, vou ser honesto. Eu sinto bastante vergonha em relação ao meu comportamento, é muito difícil admitir para mim mesmo, quem dirá tentar explicar para outra pessoa.

Se você estiver interessado, nós podemos tentar falar sobre isso aqui e depois continuarmos na minha próxima sessão? Eu acho que seria de grande ajuda. Eu definitivamente me sentiria mais confortável em falar sobre isso na frente do notebook do que pessoalmente.

Att,

K****




Re: re: Sua primeira sessão


Claro! Se é isso que você acha melhor, nós podemos começar a conversa aqui e continuarmos pessoalmente na próxima sessão, como você disse.

R.




Re: re: re: Sua primeira sessão


Ok... Vamos lá.

Como eu mencionei, eu cresci em uma cidade pequena e eu e Ben, éramos melhores amigos desde que tínhamos 11 anos. Nós passávamos muito tempo um na casa do outro, nos parques, nas ruas, brincando e brigando. Coisas de criança. Ele sempre foi mais esquisito do que eu, mas nós nunca fizemos algo que eu chamaria de perigoso ou sério.

Quando estávamos na metade do ensino fundamental, Ben começou a agir diferente. Ele estava sempre na minha casa, eu diria – quase todas as noites da semana, isso sem contar os dois dias dos fins de semana até tarde a noite. Meus pais começaram a fazer perguntas, e eu também comecei a me assustar um pouco com o comportamento dele. As idéias malucas que ele costumava sugerir abriram espaço para outras idéias, ainda mais malucas. Ele passou muito tempo tentando fazer uma bomba usando pregos e vários explosivos usando produtos químicos na minha garagem. Eu consigo me lembrar até hoje o medo que eu sentia dos meus pais descobrirem o que nós estávamos fazendo, mas sentia ainda mais medo de perder a amizade de Ben, se eu o pedisse pra parar.

Uma noite nós estávamos brincando na garagem da casa dele – o que era raro – e ele simplesmente levantou, saiu, e quando voltou, segurava uma faca de cozinha nas mãos. Ele me disse para entrar no freezer. Aquilo não era muito alarmante – nós tentávamos assustar um ao outro frequentemente. Eu dei risada, mas ele continuou insistindo por vários minutos, dizendo que se eu não entrasse no freezer ele cortaria minha garganta. Havia um tom diferente no jeito que ele falava. Deixe-me ser sincero: Em momento algum eu fiquei com medo dele fazer alguma coisa comigo, e em momento algum achei que minha vida estaria em perigo se eu não obedecesse. Mas eu sabia que ele queria que eu acreditasse que algo ruim aconteceria comigo, e eu senti uma ansiedade imensa ao perceber isso. Depois de um tempo ele simplesmente largou a faca e nós voltamos a fazer o que estávamos fazendo anteriormente.

Mas a energia pesada continuou lá, e eu comecei a achar difícil de conviver com ele, assim como nossos outros amigos na escola. Nós estávamos quase ignorando ele completamente quando ele nos contou que os pais dele estavam se separando. A mãe iria embora com o irmão, e ele, ficaria com o pai. Eu me lembro da minha mãe tentando me explicar tudo quando contei pra ela. Ela disse que esse era um momento difícil para o Ben, e que se ele havia nos contado, era importante, e que logo ele estaria agindo como antes novamente.

Eu acho que entendi tudo desse jeito, também. Com a minha pouca compreensão da psicologia. Eu esperei por quase uma semana por ele, esperei que ele quisesse jogar futebol com o resto de nós ou apenas sair juntos... Quando ele não demonstrou mudança eu finalmente trouxe o assunto á tona. Eu disse a ele que ele vinha agindo estranhamente há tempos e que talvez o divórcio tenha deixado ele muito triste, mas que ele não precisava me evitar e evitar os outros amigos dele. Ele começou a chorar, e eu acho que foi a primeira vez que vi aquela cena. “Não é isso” ele disse.

Ele nos fez caminhar em silencio até nos afastarmos da escola antes de falar o que era. Ele me disse que pelo menos seis meses atrás ele viu um homem no mercado, e o ficou encarando porque ele empurrava o carrinho de forma errante, ás vezes encostando-se nas coisas como se estivesse prestes a desmaiar e por causa da sua pele amarelada. Quando a mãe dele o viu encarando o homem ela disse que provavelmente ele estava com alguma doença terminal, e por isso “não era bonito de se ver.” Essas escolhas de palavras ficaram comigo até hoje, assim como tenho certeza de que ficaram com o Ben.

 Ben disse que na mesma semana, ele saiu da cama para ajeitar as cortinas e notou alguma coisa no jardim. Era o homem do mercado, completamente parado no meio do jardim, olhando diretamente para ele – braços completamente esticados para os lados. Eles se olharam por alguns momentos e Ben então fechou as cortinas rapidamente e encostou-se à parede – Eu ainda podia sentir ele me encarando – ele disse.

Ele não estava tentando me assustar com essa história, Ben não era tão bom ator assim. A respiração dele estava diferente, a voz quase um choramingo e algumas lágrimas saíam dos seus olhos. Seja o que for que Ben viu, o afetou profundamente. Se eu fosse lhe contar sobre isso pessoalmente, você provavelmente veria as mesmas reações em mim.

Aconteceu pelo menos uma vez por semana, Ben me contou. O homem parecia dar tempo para ele se recuperar e tentar explicar os acontecimentos se baseando na lógica, até acontecer novamente, o mesmo homem, olhando pra ele do jardim, sozinho e nem um pouco assustado por causa da escuridão – eu não falei com os meus pais sobre isso – Ben disse, tentando me fazer entender que contar era o primeiro passo para a aceitação de que isso estava realmente acontecendo, e que eu era a primeira pessoa a ficar sabendo disso.

E teve mais, ele começou a ter pesadelos horríveis, em um, estava se preparando para cometer suicídio no jardim e gravando uma mensagem de vídeo para os pais dele enquanto o fazia, e ainda houve outro, em que ele achava o corpo de uma garota em um saco plástico, tripas saindo do saco e partes do corpo retiradas. Eu fiquei em silencio por alguns minutos depois de saber disso, porque eu simplesmente não sabia como reagir, e então, ele simplesmente disse: “Eu não sei o que está acontecendo...”

Eu acreditei nele, e acreditei que ele realmente estava vendo alguma coisa e que isso estava causando algum problema emocional, então, quando ele me perguntou se eu queria passar a noite na casa dele, eu me senti um pouco assustado, mas ao mesmo tempo senti como se pudesse ajudá-lo a entender o que estava acontecendo, e fazer com que as coisas voltassem ao normal.

Foi no final de Novembro, estávamos assistindo um filme do James Bond e comendo pipoca com o pai dele no andar de cima – durante todo o tempo que fiquei lá percebi que Ben ficava bem mais relaxado ao redor do pai, e eu comecei a me lembrar daquele garoto que subia em árvores comigo, eu até comecei a considerar a ideia de que o que Ben havia me dito era mentira – mais especificamente o fato de que ele não sabia do que estava falando... Talvez o divórcio tivesse o afetado e ele quisesse apenas chamar atenção? É um comportamento normal...

Alguns minutos depois, Ben pediu para ficar acordado e assistir o jogo que ia passar meia-noite, ao vivo.

“Sem chance.” Seu pai disse, sorrindo. Nós teríamos aula na manhã seguinte e o pai de Ben iria trabalhar, mas Ben continuou insistindo e perguntando – o que fez com que eles começassem a discutir – e isso me fez perceber que ele estava com muito medo de ir dormir, isso era óbvio, mas também era óbvio que seu pai não ia o deixar ficar acordado... Essa era uma discussão desnecessária.

Quando nós estávamos no quarto dele, eu fiquei tentando arranjar uma forma de dizer que tudo bem estar triste, ou com raiva, ou até mesmo assustado depois do divórcio dos pais, mas ao mesmo tempo não queria que ele pensasse que eu estava duvidando da história dele.

Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele me olhou, nervoso, e perguntou se eu queria checar o jardim pela janela com ele.

Eu não sabia o que dizer, não sabia se deveria continuar com isso ou tentar confortá-lo de outra forma – ele continuou me encarando e eu decidi apenas olhar pela janela – não havia ninguém lá fora, Ben suspirou aliviado e tentou me assustar um momento depois. Nós puxamos a cortina, falamos sobre algumas garotas e então dormimos.

Eu acordei algumas horas depois, precisava ir ao banheiro –culpa de todas as latas de coca-cola que tomei no jantar – o banheiro ficava ao lado do quarto de Ben, então eu fui até lá sem acender as luzes, lembrei do pai de Ben falando que ia trabalhar no dia seguinte e eu não estava a fim de acordá-lo com a claridade. Quando eu estava no banheiro decidi olhar pela janela apenas para reforçar a ideia de que não havia nada lá, mas eu o vi. Eu juro por Deus, R***! Eu o vi, eu vi o homem!

Ele estava no meio do jardim, perto de algumas mangueiras, completamente parado, usando o que parecia ser uma jaqueta com botões. Ele não estava olhando pra mim, estava olhando para o quarto de Ben e eu decidi acordá-lo e contar pra ele – Ele está lá fora – Eu simplesmente disse, e eu nunca vou esquecer o olhar em seu rosto. Nós dois rastejamos até a janela, puxamos um pouco a cortina e olhamos para ele novamente. Seu rosto era quase sem expressão, porém, em alguns momentos, parecia melancólico e triste. Ben começou a chorar, largando a cortina e indo em direção ao canto do quarto, onde nós dois abraçamos nossos joelhos e ficamos lá, em silencio absoluto. Ben chorou, e eu soube o que ele quis dizer quando me contou que podia sentir o homem encarando-o mesmo depois de fechar as cortinas.

E então, uma semana depois, Ben foi dado como desaparecido. Sete de Dezembro, um pouco antes dos feriados, e como eu mencionei ontem, eles nunca o encontraram.




Re:re:re:re: Sua primeira sessão


Isso deve ter sido horrível para você, acredito que você foi muito corajoso na época, e ainda mais agora que se sente confortável para falar sobre isso.

Eu sei que pode ser doloroso tratar de emoções antigas, mas espero que você se acostume com o fato de que eu estou disposto a ouvir todas elas e que você pode confiar em mim. Estou curioso, você comentou com alguém sobre os acontecimentos na casa de Ben?

R.




Re:re:re:re:re: Sua primeira sessão


Foi extremamente difícil. A escola criou uma assembléia com a intenção de explicar os acontecimentos para todo mundo, mas meu nariz começou a sangrar logo no início e eu tive que sair. Policiais investigaram toda a área durante semanas, talvez meses. Eu odiava ter que ver seu rosto em todo lugar que eu ia – panfletos estavam espalhados por toda a cidade – e eu me sentia triste toda vez que eu via, apesar de entender o propósito. Cedo ou tarde eu teria que aceitar que ele havia ido embora para sempre e não ia retornar.

A polícia veio até minha casa uma noite e conversou comigo, e eu tentei falar que eu estive na casa dela uma semana antes, tentei explicar, mas eles não pareceram dar muita importância ou levar muito a sério. Eles estavam mais preocupados em saber se ele havia levado algo, roupas, sapatos, mas ele não havia levado absolutamente nada, e ele precisaria de pelo menos roupas se tentasse fugir! Não havia sinal de arrombamento na casa dele, nada estava fora do lugar em seu quarto... Eu me lembro dos comentários ao redor do pai dele na época, lembro da escola, os policiais, os parentes, todos falando como se Ben tivesse fugido e ignorando totalmente o fato de que talvez e só talvez ele tivesse sido sequestrado.




Re:re:re:re:re:re: Sua primeira sessão


Bom, nós falamos sobre muitas coisas aqui, K***. Eu acho que seria melhor se continuássemos essa conversa pessoalmente, assim evitaremos perder o foco ou qualquer distração – esse primeiro passo foi vital.

R.


/// BenjiMCFC93, comentou em 28 de Agosto:

Eu sei que eu não deveria ter lido, eu sei! Mas eu não posso “desler” agora... E tudo isso me assustou de tal forma que nem sei como explicar.

Aqui vai: Meu pai nunca mencionou algum amigo chamado “Ben” da época de infância dele. Ele tinha apenas dois melhores amigos, Gareth e Tom, os três se conheceram na pré-escola e estudaram todos os anos seguintes juntos. Eu já vi os dois, várias vezes, eles me mandam cartões de aniversário, e eu nunca vi nenhum deles falar de algum “Ben”.

Além disso: Meu pai não cresceu em uma cidade pequena.

E na parte que ele fala dos comportamentos eu só pude lembrar-me das coisas que começaram a acontecer depois que a minha mãe foi embora – uma noite, minha irmã desceu as escadas para pegar um livro e achou nosso pai lá, parado, no meio da sala com as luzes apagadas. Ela se assustou e acendeu as luzes em seguida, perguntando por que diabos ele estava lá parado no meio da noite e ele simplesmente murmurou coisas sem sentido e a minha irmã fingiu que entendeu, acho que ela só queria voltar para a cama e ignorar tudo isso.

Aconteceram algumas outras vezes – minha mãe o achou no jardim ás 5 da manhã, depois de acordar e perceber que ele não estava na cama, também teve outra vez que eu acordei e ele estava no meu quarto, parado, perto da minha cama com os olhos fixos em mim. Nós achávamos que ele era sonâmbulo, mas depois que as coisas entre ele e minha mãe ficaram piores, eu não sei...

E, sei lá, meu nome é Ben! Lógico! Então essa história que ele contou para o terapeuta realmente me assustou. Por que ele mentiria? EU sinceramente não sei o que fazer gente... Será que eu devo falar com ele sobre isso?

Conselhos? Alguém? 



1 de mar de 2015

A Experiência - (Dias 4-8)

Continuação da Creepypasta "A Experiência".
Se você não leu as últimas partes clique (Primeira parte) ou (Segunda parte);
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 Dia 4
10/20/2009
2:30 AM

Alguém está batendo na porta do nosso barraco. Eu estou olhando pelas câmeras bem agora; Todas as cobaias estão dormindo em seus quartos. Garett está segurando uma faca de cozinha, e Edward está escondido no quarto. Não apenas fomos tolos suficientes para não posicionar câmeras na entrada do nosso esconderijo, como também não posicionamos janelas aqui. E só temos uma porta para saída.

Eu estou imaginando uma daquelas piscininhas infantis, cheias de sangue no lugar de água. Imaginei alguém me cortando em uma das paredes, e todo o sangue coagulado escorrendo, pegajoso, posto para fora como uma barragem quebrada. Isso é o que vai ser como quando as autoridades nos encontrar aqui, picados como pequenos pedaços de carne em uma sopa vermelho. Desculpe, eu estou apenas um pouco assustada. Eu tenho que ser a responsável por tudo aqui.

As batidas cessaram. Não eram batidas brutas, como quando você espera que elas soem quando a pessoa que bate à porta veio com a intenção de te esfolar vivo. Agora que eu pensei nisso, Eu estou realmente incomodada pelo motivo de que não temos ideia de quem estava nas premissas desse lugar, que está praticamente no meio do nada. Esse foi apenas o quarto dia que estivemos aqui.

Se não estivéssemos tão ocupados depois do ocorrido da Noite 2 para a manhã do Dia Três, nós gostaríamos de ver quem estava se aproximando de uma das três câmeras. Como se não bastasse, Edward derramou café nas configurações da torre dos computadores que continham o softwere de gravação. Todos nós temos transmissões ao vivo (sobrando). Se fosse por mim ou algum demente do lado de fora da porta, um de nós iria matar o Edward.

3:00 AM

Um pensamento me ocorreu de repente: talvez a pessoa batendo na porta fosse o zelador, voltando para nos checar e ter certeza de que estávamos bem. Tendo avisado isso para Garett e Edward, Eu fiz o caminho até a porta, apenas para espiar pelo chão.

“Me desculpe,” Disse o Garett. Ele parecia um pouco surpreso por si mesmo. Eu estava também, para falar a verdade. “Você não pode sair abrindo a porta pra qualquer um aqui, em lugar nenhum, ás 2:00 da manhã. Talvez fosse o zelador, talvez não fosse. Mas se fosse, Eu acho que ele deveria ter se apresentado.”

Ele estava absolutamente certo. Isso me alertou para começar a analisar o estado da minha mente mais completamente; Com os participantes agindo estranhamente ontem, e agora essas batidas, Eu acho que eu devo descansar só por um pouquinho. Edward palpitou da outra sala, dizendo que eu deveria descansar um pouquinho, de todos os assuntos. Por mais difícil que eu ache confiar no Edward de novo, Eu acho que ele tem razão. Eu ordenei que ele e o Garett grudassem suas caras nos monitores enquanto Eu descanso. Eles estão, sem chance alguma, de sair até que eu me levante.
Garett assentiu, mas o Edward apenas deu um grunhido estranho, meio gargalhado, do quarto. Eu ignorei. Estou me sentindo exausta.

Dia 5
10/21/2009
7:30 AM

Eu dormi por 16 horas e meia, direto. Eu não acho que isso seja possível.

E se é possível, por que eu ainda estou me sentindo cansada... Eu devo estar com algo. Problemas de adaptação da altitude ou intoxicação alimentar, talvez. Eu ainda estou bem cansada.

Day 6
10/22/2009
1:10 AM

Maxwell se foi. Estou acordada a duas horas e agora ele não está em lugar algum. Garett e Edward estão no maior sono no quarto deles. Eles deixaram notas para mim por todo o monitor, mas nenhuma delas menciona o sumiço do Maxwell. E nós não temos mais a capacidade de ir pela velha rodovia. Á cada dia eu perco mais e mais controle sobre tudo que acontece aqui.

Eu preciso começar a colocar as coisas de volta no lugar. Mas não posso começar até eu encontrar o Maxwell e colocar ele de volta naquela casa. Eu nem posso imaginar o porquê dele ter ido para longe da Aspen. Aqui tem uma nota em particular que o Garett deixou.
“Pelo menos o Sexperimento é um sucesso,” dizia ela.

Olhei novamente no monitor e encontrei Elija fazendo farra com a Tabitha no próprio quarto deles. No outro andar na Asa Leste, encontrei a Aspen, Sozinha numa cama muito larga, abraçando um travesseiro. As malas do Maxwell estavam no cômodo com ela. Se ele não levou seus pertences, então é pouco provável que ele saiu do experimento.

Tendo decidido que era sem dúvidas uma emergência, eu chamei-os pelo celular, esperando chamar a atenção deles. Ele só tocou e tocou. Nada parecia estranho, primeiramente, por que o tilintar do telefone parecia vir do monitor. Mas algo estava errado. Eu desliguei os auto-falantes e liguei novamente. Eu pude ouvir tilintar. O telefone estava na floresta, do lado de fora da nossa cabine.

8:30 AM

Edward foi quem levantou primeiro, então foi ele que eu mandei ir lá fora encontrar a origem do tilintar enquanto eu ligava. Tendo encontrado o telefone, ele penetrou na mansão enquanto os outros acordavam. Eu ví ele fazer seu caminho pela casa, colocando o telefone na bancada da cozinha antes de voltar para a cabana.

Garett já está de pé. Ele e Edward estão agindo muito estranho um com o outro. Temos uma tensão óbvia aqui. Isso precisa ser resolvido se estamos prestes a começar a tomar medidas drásticas para salvar o experimento. Dei uma olhada de relance pelos monitores. Eu pude ver que os participantes (se eles podem ainda ser chamados assim a esse ponto) estão totalmente desanimados. Parece que uma disposição fria cobriu tudo nos confins da Mansão Rosewood.

Aspen foi pega olhando pelas janelas, muito constantemente. Ela parece muito obcecada com algo. Seria o Maxwell? Quando Tabitha veio pelo quarto delas, elas sentaram juntas e conversaram um pouco.

“Ele voltou novamente?” Tabitha perguntou quietamente.

“Não.”

“Sei que você está assustada,” ela acariciou a cabeça da Aspen por alguns momentos. “Eu também estou. Eu nunca fui uma irmãzona para ninguém, mas Eu posso dizer que você precisa de uma agora mesmo. Seja lá o que esteve nos aterrorizando no último dia e meio, aposto que são alguns adolescentes locais. Muitas pessoas ficaram sabendo sobre essa casa. O Maxwell não tinha que...”

Tabitha parou, olhando diretamente para as câmeras. Segurando a Aspen pelas mãos, ela guiou ela para fora da sala e apenas sussurros roucos puderam ser ouvidos agora de uma localização desconhecida.
Enquanto eu olhava pelos meus arquivos, eu percebi que nesse ponto, minhas notas pareceram bem fora do assunto. Eu não sei aonde minha lógica havia ido, mas parecia estar continuando, seguindo em frente pelas minhas experiências. Com certeza eu estive doente, mas eu me perguntei se eu já tinha percebido isso antes, ou era essa viagem toda um erro? Eu preciso saber o que meus “ajudantes” sabem sobre Maxwell e os outros participantes. O que esteve os aterrorizando enquanto eu estava fora dessa?

12:05 PM

Nós três temos que sentar para começar do zero. Significa que o Edward saiu da cabana enquanto eu dormia. Ele disse que foi só por que ele estava preocupado com uma das garotas, mas pelo olhar que o Garett me dava, eu não acho que ele estava me contando a história toda.
Você falhou ao me alertar isso antes,” Eu alertei o Edward. Ele não pareceu arrependido. Garett e Eu tivemos que nos questionar calados o tanto que o Edward andou falhando sem querer; ou o quanto ele esteve cometendo deslizes propositais. “Então, aquelas são suas pegadas na câmera 23?”

Ele encarou o monitor por um longo tempo antes de dizer em tom baixo, que não eram. A Câmera 23 estava apontando para a parte de trás da asa oeste, por onde ele fez seu caminho pelo leste. Mas não haviam poucas pegadas. O lugar estava cheio delas.
“Estou indo dar uma olhada, por minha conta, agora.” Eu disse, pegando minha jaqueta. O pensamento não me agradava completamente, mas eu senti como se eu tivesse chegado a uma posição sem nenhum outro recurso.

Garett olhou feio para o Edward. Este olhar foi desviado inconfortavelmente. Era suficiente para chamar minha atenção. Eu estava ficando frustrada. Eu demorei para descobrir o que realmente havia acontecido enquanto eu dormia.

“Aquelas são minhas pegadas,” disse Edward. “Mas não dessa manhã, e não de apenas uma viagem. Eu estava tentando manter o espírito original, da nossa experiência, vivo... Você sabe. O Medo.”

Não é muito interessante, Eu retruquei

[Uma pequena anotação do Thiago:
  Isso era tudo que o arquivo continha naquele dia. Isso foi obviamente ocultado ou deletado. Abaixo temos um arquivo intitulado: Ajudante Edward 22. Esse arquivo continha quatro documentos, todos fragmentados. Um em particular contêm uma única palavra. Eles dão uma pequena evidência sobre o tempo que foi coberto, mas pelo nome do arquivo, talvez seria mais seguro dizer o que eles encobriram pelo resto do Dia 6.

Não quero privar aqueles interessados em algo que eu tive acesso, então Eu suponho que Eu irei postar os respectivos pedaços em tópicos, como eles apareceram no arquivo.]

Ajudante Edward 22:
1. W
2. O maior erro do Edward foi não medir suas iniciativas,
3. Sintomas de surgimento de um sociop;
4. Negativa evidente no

Dia 7
10/23/2009
3:00 PM

Não era suposto o Edward estar assustando eles mais. Só era cabível a ele fazer o reconhecimento. Eles estão ficando mais adeptos a se esquivar dos microfones e gravadores de vídeo. Em breve iremos precisar de uma linha franca de comunicação aberta em ordem de tomar o fundo dessa revolta.

Nesse meio tempo, Edward não pode ser autorizado à ter regime aberto nesse lugar. Não mais. Ele se foi e absolutamente assustou Aspen e Tabitha. Para completar, ele escapou de novo na noite passada, após confessar o quão mal ele estava pelo seu comportamento durante minha doença. Ele foi aterrorizar as garotas novamente. Elija, o pobre e ousado idiota que ele é, estava vindo logo após com um taco de baseball quando nós o encontramos nas câmeras, com um taco de baseball.

Edward é muito sortudo, pois o Maxwell chegou de volta à casa quando ele também chegou. Elija pensou que ele era quem estava assustando as garotas. Maxwell pareceu perplexo e preocupado sobre o taco e a irritação do Elija.

“Por onde você andou, cara?” Elija interrogou. Edward, não mais que 10 pés de distância da esquina, fez de um largo carvalho seu esconderijo. “Eu pensei que a aberração estava vindo para nós novamente, mas era você. O que você andou fazendo? Você encontrou...“

Ele olhou para a câmera e parou. Isso estava ficando irritante. Eles pareciam ter ciência de cada câmera e suas localizações, como se eles tivessem um mapa ou algo assim.

“Te direi lá dentro.” Maxwell respondeu bem baixo. “Vamos sair de vista.”

Edward então fez seu caminho de volta. Eu não irei mais tolerar o comportamento múltiplo dele. Ele não irá mais pôr em perigo o estudo... seja lá o quê o estudo possa ser. Percebo que, outro dia, eu poderei agradecer a ele por ajudar a experiência a tomar esse rumo novo e excitante que nos foi mostrado. Mas esse dia não é hoje.

Dia 8
10/24/2009
10:30 AM

Finalmente, essa experiência está de volta aos trilhos. Acredito que o Edward tem sim tomado um gosto de seu novo emprego no barracão do outro lado do pátio. Tendo em vista que ele não pode se permitir ser barulhento, para sua própria segurança, é a situação perfeita para todos nós. É só estranho que o zelador não tenha percebido que havia outro barracão na propriedade.

Levantada da última rodada de eventos, eu já era capaz de colocar os participantes no telefone e conseguir uma entrevista em vídeo com a Aspen. Ela está sentada na sala de gravações agora. Ela possui uma quantidade considerável de maquiagem, como se ela fosse num encontro amoroso. Seu cabelo loiro estava elegantemente enrolado, e sua pele estava absolutamente brilhante.

“Maxwell voltou,” ela sorriu.

“Estranho.” Eu disse para o Garett. Ele revirou os olhos. Com o Ed fora de cena, ficamos mais próximos, algo mais que parceiros. “Quando ela começou à se importar tanto com ele?”

“Devem ter finalmente se entendido” Garett disse, com sarcasmo.

Eu dei a ele um sorriso apaziguador, mas eu tenho outros pensamentos percorrendo minha mente. Eu não acho que essa seja a única explicação. Seria difícil o suficiente para explicar todas as mudanças comportamentais ocorrendo em torno do assunto.

“Me conte sobre o Maxwell” Eu disse pelo microfone.
“Me desculpe,” ela disse, ainda sorrindo estranhamente. “Só o Max pode te contar sobre o Max. Não sou a babá dele; Não sou babá de ninguém, ou biógrafa de ninguém. Mas eu acho que você deva gostar de sabe que todos nós tivemos uma conversa na última noite. Achamos que você se sentiria honrada em saber que estamos prontos para sermos bons participantes na sua pesquisa. Você tem alguma ordem imediata, Mestra? Ou devemos continuar explorando nossa sexualidade e compatibilidade?”
A energia caiu.

7:30 PM
Estive pensando sobre a estranha cronometragem da falha elétrica, justamente como se ela fizesse aquilo. E têm mais, Eu estive pensando sobre ser chamada de mestra. Ela não soou puxa-saco, sarcástica ou rebelde. Sua voz era, no mínimo, neutra. Então o que ela estava pensando?
É difícil agora estar feliz sobre resumir exatamente o que viemos fazer aqui. Isso não soava normal. Não mais. Entretanto, parece ter algo novo para descobrir aqui, algo da mais interessante natureza psicológica. Não pude colocar minhas mãos nisso ainda. Garett e Eu, ambos sentimos que isso irá se apresentar cedo demais: A real descoberta está para ser revelada aqui, na Mansão Rosewood.

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Continua...

28 de fev de 2015

Eu era um soldado da Guarda Real - Parte III (FINAL)


Minha sobrinha veio para a cidade na sexta-feira e eu teria o fim de semana todo com ela. Correr atrás de uma criança de sete anos faz você perder a cabeça sem sobrar tempo para pensar numa mulher louca te assediando. Além disso, eu estava fora daquele trabalho – peguei a documentação de transferência naquela manhã.

Eu passei todo o dia levando a menina a diferentes lugares que ela gosta. Foi muito cansativo. Sábado eu preparei o café e passamos boa parte da manhã assistindo desenho animado. Depois nós colocamos o filme da Mulher Gato e minha sobrinha se vestiu como ela – por algum motivo ela a amava (o filme é um lixo completo). Acho que não estava acostumado a ter que cuidar de crianças, porque eu dormi no sofá, já exausto.

Minha sobrinha me acordou.

“Uki” disse ela (é como ela me chama) “Uki, vamos brincar.” Ela estava segurando meu velho par de walkie-talkies. Eu costumava amar aquilo quando criança, então não poderia dizer não a ela.

“Claro, vamos ver se essas coisas velhas funcionam. Vamos lá fora, eu quero checar o alcance dessas belezinhas.”

Seu rosto se iluminou enquanto ela corria para fora.

Eu liguei o walkie-talkie e comecei a mexer nele. O barulho de estática estava lá, o que significava que as baterias estavam funcionando, era só uma questão de encontrar a frequência certa.

“Ashley? Ashley, está me ouvindo? Câmbio.” Eu tentei algumas vezes.

Finalmente ouvi alguma coisa.

“Ashley, está me ouvindo? Repito, está me ouvindo? Câmbio.”

“Nero” foi tudo o que ouvi em baixo volume.

“Ashley, pirralha, você precisa dizer “câmbio” quando terminar.”

“N...e...ro” ouvi de novo.

“Que merda!” pensei. Com preguiça de ir para fora, tirei as baterias, soprei nelas, como se tivesse algum efeito, e as coloquei de volta.

“Ok, mulher gato, é o Nero, está ouvindo agora? Câmbio.”

“ZERO”

Derrubei o walkie-talkie.

Não era a voz da Ashley. Não era “Nero” o que eu tinha ouvido.

Ashley.

Corri para fora e imediatamente comecei a me odiar por deixar a menina sair sozinha. Ashley estava no quintal, segurando o rádio, apertando com força. À sua frente estava a mesma mulher, inclinando-se toda para baixo, em direção ao rosto de minha sobrinha.

“Zero, zero, zero, zero, zero” era o que a mulher repetia freneticamente para o rosto traumatizado de Ashley.

Sim, quando alguma aberração me incomoda eu consigo me controlar. Mas uma criança, minha sobrinha?

Perdi a cabeça. Corri em direção à mulher e a ataquei com tanta força que tive certeza que a machucaria. Assim que caí no chão me levantei e peguei Ashley. “Você está bem?” Eu gritei. “Ela tocou em você?” Eu nem sequer percebi o quanto a estava sacudindo, provavelmente a assustando ainda mais.

Ashley agora estava chorando tanto que não conseguia responder.

“Vamos entrar” Disse quando me virei para a mulher. Ela continuava caída no chão, o rosto virado para baixo. Assim que entramos em casa, fomos até a janela. A mulher começou a se levantar. Ela virou para nós.

“Estou chamando a polícia” Falei aterrorizado para Ashley enquanto pegava o celular. “Não se preocupe, meu amor, tudo vai ficar bem.”

A mulher deu um passo até a janela. E mais um. Seu nariz estava sangrando e ela estava visivelmente machucada porque estava mancando, mas isso não parecia a incomodar. 

Eu vou admitir, estava quase congelando com a descarga de adrenalina. Nós só ficamos na janela, observando a aberração se aproximar de nós.

“A polícia está a caminho” falei para minha sobrinha que continuava chorando.

A mulher andou até a janela.

Ela... Ela não estava mais olhando para mim. Ela se inclinou até o rosto de Ashley. A pobrezinha agarrou minha mão e estava apertando forte demais para uma menina de 7 anos. Aquela porra, vaca, mulher, o que quer que fosse, se inclinou toda para a janela. Somente o vidro separando ela e Ashley. Quando eu estava quase levando minha sobrinha para outro cômodo, longe dessa coisa, a mulher abriu a boca, mas imediatamente a fechou num sorriso. Isso de novo. Isso era tão impossivelmente estranho. Quando ela abria a boca, as pupilas iam para a parte de trás de sua cabeça, só para imediatamente voltar seguido com um sorriso. Agora ela estava inumanamente alternando entre um sorriso e uma boca escancarada combinada com olhos sem pupilas.

“Vamos sair daqui.” Falei para Ashley assim que a peguei e levei para meu quarto.

A polícia chegou 15 minutos depois. Eles começaram a varredura do bairro e realmente pegaram uma mulher que correspondia com a minha descrição. Eu tive que ir até a delegacia para reconhecê-la, mas primeiro eu tinha que deixar Ashley na estação de trem. Sua mãe queria que ela voltasse imediatamente depois do que aconteceu e eu não poderia culpá-la. Eu a levei até a estação, onde eu combinei com a equipe para ficar de olho nela até chegar a seu destino.

Um condutor muito agradável me prometeu que iria acompanhá-la por toda viagem. Ele pegou Ashley pela mão e lhe prometeu mostrar todas as partes legais do trem. Finalmente a garota sorriu.

Assim que o trem estava se preparando para partir, o condutor colocou minha sobrinha nas escadas. “Diga adeus para seu tio,” ele disse “estamos prestes a sair.”

“Tchau, Ashley, diga para a mamãe me ligar quando Você chegar, ok?”

Ela não respondeu, o que era compreensível. A criança provavelmente continuava terrivelmente assustada, porra, eu ainda estava assustado.

Quando no alto-falante informou que o embarque estava terminado, o condutor abriu a porta para que eles entrassem no trem. Entretanto, Ashley não se moveu. Ela olhou para o condutor.

“Vamos agora.” Disse ele.

Ashley abriu a boca, olhando para o homem.

“Nós temos que entrar agora, estamos quase começando o trajeto, querida.” Ele disse novamente. “Vamos.”

Assim que entrou no trem e Ashley o seguiu, ouvi-a dizer “10, 9, 8”.


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Estou planejando escrever sobre o que aconteceu com Ashley, em algum momento, embora sua família prefira que seja mantido privado.
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PARTE I AQUI

PARTE II AQUI

27 de fev de 2015

Parcerias

(A PAGINA SE ENCONTRA EM MANUTENÇÃO)

26 de fev de 2015

Eu era uma das "solteiras gostosas perto de você".

Se você já visitou algum site com conteúdo pornográfico, deve conhecer aquelas propagandas no estilo "solteiras gostosas perto de você". Naturalmente, sabe também o quão falsas são essas propagandas - as mulheres que aparecem nas fotos não estão perto de você, só são fotos tirados de sites de prostituição estrangeiros. provavelmente  você sabe disso tão bem que não perde seu tempo clicando nessas publicidades.

Entretanto, se você clicar, uma janela de chat se abre e você pode escolher com qual garota quer conversar. No começo, o chat é de graça, mas depois de um tempo você tem que se cadastrar para continuar usando. Então tem que pagar por cada minuto em que estiver falando com uma das garotas que escolher.

Eu sei disso porque sou uma dessas garotas.

Seis anos atrás eu era um estudante sempre sem dinheiro. Meu amigo Josh disse que tinha descoberto um jeito super fácil de conseguir dinheiro. "Não é como se você fosse uma prostituta, ou algo do tipo. É completamente anônimo, eles não sabem com quem estão falando. Na verdade, metade de nós somos homens! Você só tem que fingir que é uma garota. Até que é bem divertido. E as empresas pagam bem, você pode trabalhar direto da sua casa e escolher quantas horas por semana quer trabalhar. Tudo que tem que fazer é conversar sacanagens com caras que nunca vai conhecer na vida real."

No começo eu não estava gostando muito da ideia. Sentia que estava trapaceando. Mas então me perguntei se alguém realmente achava que "solteiras gostosas perto de você" era real. Claro que não. Era tudo uma fantasia. Como se estivesse escrevendo um conto erótico em tempo real. E ser pago pra isso. Então deixei Josh me inscrever.

O sistema era simples. A primeira conversa, a de graça, era com automática. Depois que o usuário se inscrevia e começava a pagar, conversava com uma pessoa real (nós, no caso). Nosso trabalho era fazer com que eles ficassem online o maior tempo possível.

No começo era bem divertido. Eu me tornava bem criativo enquanto interpretando "Sally" (uma universitária tímida que estava desesperada por dinheiro), "Kaylee" (uma garota nerd com óculos, muito safada e flexível), e "Rhonda" (uma garota negra gordinha, apaixonada e maternal).

Era hilário e logo parei de sentir vergonha por estar fazendo aquilo. Claramente, meus clientes estavam gostando, e como eu ficava anônimo, não sofria risco nenhum de ferrar com minha carreira futura - com toda certeza não colocaria esse emprego nos meus currículos seguintes. O dinheiro era bem interessante, assim como Josh já tinha me avisado, e como eu podia escolher os horários em que trabalhava, achei ser uma escolha perfeita para alguém como eu, que estudava bastante também.

Mas obviamente existiam pontos ruins. Como você pode imaginar, alguns caras não pegavam leve. Eu não era virgem, mas tive que explorar coisas que eu nem sabia que existia. Haviam alguns que eram extremamente violentos, aqueles que queriam machucar sua parceira (ou ser machucado). Daí existiam caras que queriam que eu interpretasse uma menina de 13 anos. E outros que ainda gostavam de coisas bem mais doentias.

Não acho que seja legal eu reescrever essas coisas aqui, mas quero que você saiba que nem sempre foi um mar de rosas. Algumas conversas eram bastante desconfortáveis e algumas vezes eu não sabia se devia deslogar, dispensar o cliente ou continuar. Mas insistia em falar para mim mesmo que era apenas um tipo de jogo, um jeito inofensivo desses caras realizarem suas fantasias. Era só conversa, eles não estavam machucando ninguém de verdade. As vezes fazia esse tipo de "programa", e o quanto mais eu fazia, mais fácil ficava. Me impressionei comigo mesmo quando me encontrei conversando casualmente sobre sexo com facas e sobre chutas as bolas de outro cara para gerar prazer.

Depois de um ano nesse emprego era muito raro ficar surpreso com alguma coisa. Haviam três tipos principais de clientes: a maioria queria conversar sobre putaria "normal", os solitários que estavam mais precisando de um amigo ou terapeuta (conversavam sobre coisas do cotidiano) e os que eram muito pervertidos. Logo aprendi a lidar com todos eles.

Entretanto, um cara realmente estranho apareceu. Ele não parecia se encaixar em nenhuma das categorias acima. Ele não queria conversar sobre sexo, mas também não se encaixava nos caras solitários. É muito difícil descrevê-lo, então vou tentar reescrever um pouco do que lembro da nossa primeira conversa. Ele se chamava "O pescador". Ele sempre queria conversar com "Rhonda":


Eu: Oi querido. É a Rhonda aqui, como você está?
Ele: Fale comigo.
Eu: Okay... O que você tem em mente? ;)
Ele: Apenas converse comigo. Não aguento mais essa casa. Não aguento mais essas vozes. Apenas fale qualquer coisa.
Eu: Bem... Você está afim de que? Está bem quente aqui ;) Quer saber o que eu estou vestindo?
Ele: Não! Não. Só... Fique aqui. Por favor.
Eu: Okay, querido. O que aconteceu? Você está bem?
Ele: Não, eu não estou bem. São essas pessoas. Eles fazem tanto barulho! Não aguento mais.
Eu: Então... você tem colegas de quarto barulhentos?
Ele: Sim! Só quero silêncio. Só quero a porra do meu silêncio.
(Nesse ponto eu estava bastante confuso, mas continuei).
Eu: Talvez você devesse conversar com eles? Falar que você precisa de um pouco de privacidade.
Ele: Não consigo me livrar deles. Sempre tem alguém.

E continuou assim. Logo desenvolvi a ideia de que provavelmente ele não estava completamente são. Pessoas loucas de verdade eram raras nas conversas, mas não inexistentes. Eu não que qualifico como terapeuta, mas dava o meu melhor para fazê-los se sentirem bem.

O Pescador voltava sempre. Eu o reconhecia pelo jeito que escrevia. Usava o chat por horas (nessa época eu comecei a me sentir mal, essa pessoa estava claramente doente e eu estava usando-o em um site pornô para conseguir dinheiro), sempre falando sobre querer silêncio e as pessoas barulhentas em sua casa. Comecei a pensar que não existia ninguém na casa dele - provavelmente era coisa da cabeça dele.

O Pescador virou um cliente tão assíduo que raramente tinha tempo para outros. Ele agendava com Rhonda por horas a fio. Parecia também que não conversava com nenhum outro funcionário além de mim - mesmo quando eles estavam interpretando Rhonda. De algum jeito ele me reconhecia e deslogava quando percebia que era outro funcionário dizendo "Você não é a Rhonda!". Josh começou a fazer piadas dizendo que O Pescador estava perdidamente apaixonado por mim, mas eu não via graça nenhuma naquela situação. Meu trabalho não era mais divertido, tinha me tornado um terapeuta pessoal para uma pessoa aleatória. Perguntei para meu patrão se poderia parar de interpretar Rhonda, mas O Pescador estava dando muito dinheiro para o site e insistiu que eu continuasse.

Então continuei. E para meu pavor, descobri que estava desenvolvimento algum tipo de sentimento por ele. Não algo romântico, nada desse tipo. Mas me pegava pensado quem ele era. Acho que não é possível passar hora e horas conversando com alguém sem criar algum tipo de conexão. Mas ao mesmo tempo conversar com ele me deixava tenso, e ficava feliz por ser apenas "Rhonda" para ele.

Essa foi uma das últimas conversas que tive com ele:

Ele: Não sei como me livrar deles. Não tenho saída. Só quero que vão logo embora.
Eu: Ouça, querido, acho que essas pessoas que você tanto fala... Não acho que sejam reais.
Ele: Eles não são reais?
Eu: Não. Acho que você os inventou. E se eles estão só na sua cabeça, você pode só parar de pensar neles, daí vão desaparecer!
Ele: Posso fazê-los desaparecer?
Eu: Sim, você pode.
Ele: E isso é o que você quer que eu faça, Rhonda? Que eu faça eles desaparecerem?
Eu: Se isso te fazer feliz, sim, querido.
Ele: Você está certa. Posso me livrar deles. Posso fazê-los desaparecer. Eu posso. Obrigada, Rhonda. Eu te amo, Rhonda.
Eu: "Amar" é uma palavra muito forte, querido.
Ele: Vou fazê-los desaparecer agora mesmo.

Ele deslogou. Foi o tempo mais curto que tinha ficado conversando comigo. A conversa me deixou estranhamente preocupado. Sabe, aquela sensação que você sente que fez algo muito errado, mas não consegue definir o que? Me sentia exatamente assim.

Mais tarde naquele mesmo dia ele entrou novamente. Foi a última conversa que tive com ele. E também a última de todas - me demiti logo em seguida.

Ele: Rhonda... O que eu fiz? O que você fez? Por que você me falou para fazer isso?
Eu: Que? Do que você está falando?
(Eu estava tão apavorado que nem entrei no personagem)
Ele: Eu matei todos eles... como você disse que eu tinha que fazer... agora estão todos mortos.
Eu: Não entendi.
Ele: Eles não paravam de falar, depois não paravam de gritar. Continuei e continuei até que eles pararam. E agora só tem silêncio... finalmente meu silêncio.
Eu: Isso está me deixando desconfortável. O que você fez?
Ele: Eu os matei que nem você falou que eu devia fazer. E agora tem sangue pra tudo quanto é lado. Matei minha mulher e meus filhos. Porquê você mandou. É sua culpa.
Eu: Para com isso.
Ele: É sua culpa. Você fez isso. E você vai pagar. Você vai pagar, porra! Rhonda! Vou te encontrar e você vai pagar por isso!
Eu: Vou sair agora.
Ele: Não tente escapar. É sua culpa. Você me fez fazer isso. Esse era seu plano desde o começo. Você que me colocou contra eles. Você fez isso. Você fez isso. Você. Vou te encontrar e fazer você pagar por isso.

Me desconectei. Liguei para Josh e para meu chefe imediatamente e disse que estava me demitindo. Contei honestamente o que tinha acontecido e também que dentro de nenhuma circunstancia eles poderiam dar minha identidade real para ninguém. Fiquei em pânico e Josh teve que vir até minha casa para me acalmar, me assegurando que O Pescador não poderia me encontrar nem se fosse um super hacker, pois meu nome não estavam em nenhum lugar do site.

Meu chefe também me assegurou que a companhia era bem rigorosa com o anonimato de seus empregados. Volta e meia os clientes contatavam a empresa tentando descobrir os nomes reais das pessoas que tinham conversado, mas eles nunca falavam. Faziam isso tanto pela privacidade do empregado e para não quebrar a "ilusão" que o site criava. Meu chefe me explicou diversas vezes que era totalmente seguro e que sentia muito por eu ter que ter passado por aquilo. Ele não queria que eu me demitisse e perguntou se eu queria ficar e apenas não fazer mais o papel de Rhonda, mas eu não quis.

Eu não conseguia parar de pensar no O Pescador e se ele tinha realmente matado alguém, ou se talvez aquilo fosse apenas uma piada de mal gosto. Talvez esse tipo de coisa o excitava? Josh falou que provavelmente era isso mesmo. Fiquei acompanhando os jornais naquela semana, mas nenhum homicídio que foi noticiado se encaixava naquela situação. Considerei ir até a policia, mas eu não sabia nada sobre aquela pessoa. Poderia ser qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Talvez nem estivesse no mesmo país que eu? Ele poderia ser Chinês pelo o que eu sabia.

Uma coisa era certa: Se O Pescador tinha matado alguém, fez de um jeito que não chegou a ser noticiado aonde eu morava. Tentei até procurar no Google coisas como "assassinato de família" naquele dia, mas não achei nada. Josh continuou a trabalhar no site e volta e meia eu perguntava se O Pescador tinha voltado, mas estava desaparecido. Fiquei feliz que aquilo tinha acabado, e com o tempo deixei isso para lá.  

Fiquei sem pensar no O Pescador por anos. Até que ontem aconteceu uma coisa que fez isso tudo voltar a minha mente.

Depois de um longo dia de trabalho decidi ir no cinema, sozinho. Só queria um tempo para mim mesmo, sendo que tinha terminado um relacionamento a algumas semanas e tudo estava bastante confuso desde então. Escolhi um filme que já estava a algum tempo em cartaz, assim a sala não estaria cheia. Tive sorte - estava quase vazio quando entrei. Escolhi o melhor lugar (última fileira bem no meio), e comecei a tirar minha jaqueta quando um cara veio até mim.

"Esse lugar está vago?" Falou. Pelo sotaque, pude perceber que ele era estrangeiro. Estava bastante escuro na sala, então não tive como avaliar seu rosto para ver de onde ele parecia ser ou quantos anos tinha.

Fiz que sim com a cabeça e ele se sentou. Fiquei um pouco irritado, o cinema estava quase todo vazio e nesse momento estava afim de ficar sozinho. Tinha que se sentar bem do meu lado? Havia um monte de lugares. Então ele falou de novo.

"Você gosta de filme de terror?"

Sendo que não estava com vontade de fazer amizades naquele momento (e parecia que ele estava dando em cima de mim), educadamente falei que gostaria de ficar sozinho. Ele não respondeu, só pegou um pedaço de papel do seu bolso e começou a escrever ( o que achei ser um número de telefone). Então colocou o pedaço de papel no bolso da minha camisa (o que achei bastante invasivo) e saiu andando. Foi bem estranho. Não mudou de lugar, simplesmente foi embora do cinema. Não assistiu o filme.

Fiquei bastante irritado com aquela situação, mas assim que o filme começou esqueci completamente. Só lembrei novamente do cara esquisito que havia me dado seu número quando cheguei em casa. Peguei o papel do meu bolso para jogar fora, mas antes percebi que não havia números e sim uma frase.

"Te achei, Rhonda. E vou te achar de novo."  





25 de fev de 2015

[DIGNÍSSIMO SENHOR SIMPLÓRIO] Episódio 2: Minha Parte Favorita

Confiram agora o primeiro episódio da série de nosso querido Digníssimo Senhor Simplório. Hoje, ele irá narrar pra vocês uma Creepypasta chamada "Minha Parte Favorita". Ahh, como o tempo passa rápido...

Preparem seus fones de ouvido e apaguem as luzes, pois será uma experiencia bastante "agradável".

PS: Para as pessoas que descobrirem o Easter Egg do começo do vídeo (antes da história começar), o Digníssimo prometeu um pacote de bolacha.

Confiram! Se gostarem, não se esqueça daquele like maroto e comentem ai embaixo o que acharam \o/


Link para a história original:

24 de fev de 2015

O único


Eu gostaria de aproveita esta oportunidade para conversar com você, a pessoa que está lendo isto. Há algo especial sobre você. Algo que o torna diferente de qualquer outra criatura neste planeta. Todos os outros seres deste planeta sabem quem você realmente é, mas juramos segredo. Juramos pelos nossos grandes ancestrais que nunca revelaríamos a verdade para você.

Até agora.

Por muitos anos, o mundo inteiro esteve assistindo ao seu amadurecimento. E eu sempre senti a necessidade de contar-lhe que tudo era uma grande mentira. Você anda entre nós, acreditando que somos criaturas semelhantes. É tudo uma farsa. Posso dizer-lhe agora mesmo, categoricamente, que você é o último ser humano neste planeta. De fato, você é o último ser humano em existência.

Anos atrás, nosso posso se aventurou em uma planeta longínquo, conhecido como Terra. Esperávamos descer dos céus, trazendo coisas que nenhum humano sequer teria sonhado. Seria uma conquista fantástica; criar laços com os povos da Terra, construindo uma relação forte o suficiente para mover um planeta.

Porém, quando enviamos o nosso Profeta para iniciar os planos, ficamos horrorizados ao descobrirmos que ele fora tratado com hostilidade. Ele foi sacrificado por seu povo, que era bastante primitivo, a ponto de acreditarem que todas as palavras do Profeta não passavam de mentiras e bruxaria.

Após a morte do nosso profeta, as grandes mentes do nosso planeta concordaram em destruir a terra, junto com a raça humana, tudo pelo bem de todo o universo. E foi o que aconteceu. A terra foi obliterada, e todos os humanos destruídos. Todos, exceto um.

Você.

Entenda, apesar de concordarem com a destruição da terra, o meu povo é bastante generoso. No fim, não queríamos ser os responsáveis pela extinção de uma raça. Então pegamos uma pequena criança, e a colocamos sob os cuidados de dois seres do meu planeta. Eles seriam o que você considera como “pais”. Eles o criaram em um estilo tradicional do meu planeta. Eles o criaram para ser civilizado, ao contrário dos seus parentes humanos.

Decidimos estuda-lo. Queríamos ver a sua adaptação sob certas circunstâncias. É por isso que fazemos coisas acontecerem em sua vida. Coisas que o afetem emocionalmente. Estudamos a tristeza, felicidade, medo, prazer, dor e outras emoções. Apenas saiba que tudo é controlado.

Criamos o conceito de “Religião” para descobrirmos se você aceitaria a possibilidade da criação divina.

Criamos um sistema de autoridades, para instilar um senso de medo e punição.

E mais importante, criamos uma grande rede de “amigos”, “família”, e outros amados por você; tudo em nome dos estudos.

Acho que já falei demais. Apenas saiba de mais uma coisa, jovem humano. A idioma que você fala, não é o idioma próprio da sua raça. Essa cultura não é sua, é nossa. Você é único ser humano que anda sobre este planeta, e a Terra já se foi a muito tempo.

Eu o aconselho a continuar com a sua vida diária, como se não soubesse da estranha realidade por trás de tudo.

Continue vivendo tranquilamente, pelo seu próprio bem.

23 de fev de 2015

Misantropo

Pode me chamar de misantropo, introvertido, eu não me importo. A questão é que, eu sempre preferi ficar sozinho.

Eu tive alguns amigos – se é que posso chamá-los de amigos – pessoas do trabalho, vizinhos, família. Eu até tentei esse negócio de namoro, mas nunca funcionou pra mim. Eu tive uma namorada por dois anos, mas ela me largou porque eu não gostava de sair com os amigos dela e preferia ficar em casa.

O único sentimento que tomou conta de mim depois que ela me deixou foi alívio.

Eu também tentei sair com um grupo de pessoas que conheci online – e com “sair” eu realmente quis dizer no mundo real. Eu fiz isso porque a minha ex falava sempre que eu precisava sair mais, conhecer mais pessoas... Você sabe, “sair do casulo”.

Depois de sair com eles eu percebi que realmente preferia meu casulo, mas deixe-me explicar: Não é que eu não goste deles, eu simplesmente não sou uma pessoa que gosta de sair. Eu não tenho síndrome de Asperger ou nada disso – eu posso conversar, posso ser amigável, sempre ajudei idosas a atravessar a rua quando eles precisam, já doei sangue simplesmente porque estava com vontade, já ajudei pessoas desabrigadas – é apenas o fato de que eu prefiro ficar em casa numa Sexta-Feira à noite lendo um livro, e se eu tiver amigos, vou ser obrigado a sair.

Eu falei isso tudo apenas para deixar claro que o mais sozinho que eu já me senti foi quando estive em volta de várias pessoas, e eu realmente acho que o melhor sentimento que se pode ter é simplesmente solidão.

Isso é... Até essa manhã.

Eu acordei e percebi que não havia luz, eu vivo em um prédio antigo no centro da cidade. É o tipo de lugar onde os papéis de parede estão caindo pelos cantos e a pintura é velha e acabada... Em muitos lugares o teto era apenas uma coleção de buracos, os elevadores fazem barulhos estranhos e o lugar todo tem uma névoa esquisita do que parece ser fumaça de cigarro ou de maconha. Eu já fiquei sem energia antes, e na última vez que aconteceu, não retornou por dois dias, o que me irritou, pois eu havia feito compras no dia anterior e tive que assistir enquanto algumas delas estragavam.

Então, quando eu acordei, meu primeiro sentimento foi irritação. É melhor que haja energia quando eu voltar do trabalho, murmurei. Geralmente nós ficaríamos sem luz na neve, ou depois de uma tempestade... Mas no meu prédio, onde a instalação elétrica era mais antiga que tudo, poderia faltar luz em qualquer época do ano – então, eu nunca me incomodei em procurar razões relacionadas ao tempo para justificar.

Eu abri todas as janelas, mas não ajudou muito, estava tudo meio cinza dentro do meu apartamento. A semana tem sido nublada desde o começo, houve até alguns relâmpagos, então mesmo com a minha maior janela aberta eu não conseguia ver muito, e meu banheiro, que não tinha nenhuma janela, estava mais escuro que um sarcófago.

Meu alarme estava desligado, claro. Então eu chequei as horas no meu telefone e depois de um momento entrei no chuveiro, não me importando muito com o fato de que a água estava gelada e de que eu não conseguia enxergar minhas mãos em frente ao meu rosto. Mesmo se eu tivesse saído pela porta naquele horário, ainda estaria atrasado uma hora para o trabalho. Eu odeio atrasos. Eu geralmente tento estar pelo menos 15 minutos adiantado. É apenas mais uma mania de introvertidos – tentar estar no horário, sempre.

Depois de vestir algumas roupas, saí pelo corredor e fui até o elevador – lembrando somente depois que falta de energia significava falta de elevador – fui em direção ás escadas.

Essa foi provavelmente a primeira vez que senti uma sensação de mal-estar. Eu fiz o que pude para ignorar, porque não sou mais criança e esses tipos de pensamento sempre rondam sua cabeça tentando te incomodar. Mas era difícil, e não só por causa da escuridão do prédio, mas também porque naquele momento percebi que não havia visto uma pessoa sequer durante toda a manhã.

Mas só isso não era tão alarmante, eu já caminhei até o elevador muitas vezes sem ver qualquer outra pessoa, no entanto, enquanto eu atravessava o corredor, usando a luz do celular como lanterna, percebi outras coisas que estavam fora do lugar. Primeiro: Eu não havia escutado nenhum barulho vindo dos apartamentos, e o ar estava desligado, o que deveria deixar qualquer barulho mais alto. Segundo: Eu estava atrasado. Normalmente eu vou para o trabalho antes do horário normal, mas hoje, eu estava indo mais tarde – quando a maioria do prédio também vai – talvez alguns deles tivessem usado o elevador mais cedo, porém, de qualquer forma, alguns deveriam ter usado as escadas comigo.

Quando cheguei ao térreo tudo ficou ainda pior – mais cedo, quando abri a janela, não parei para olhar a rua e não percebi a quão parada estava.

Havia somente carros nas ruas e eles estavam estacionados, nenhuma alma á vista. Os prédios adiante não pareciam fechados, mas também não pareciam abertos; apenas escuros e vazios.  Eu engoli em seco e disse a mim mesmo que provavelmente havia alguma razão para isso, mas a minha mente se recusava a aceitar. Eram 08h30min da manhã de uma Terça-Feira! As ruas estariam lotadas de carros e as calçadas lotadas de pessoas – isso sem mencionar o barulho – mas a única coisa que ouvi foi o vento correndo entre os prédios.

O quarteirão todo estava sem luz, tinha que ser isso. Todo mundo ainda estava dentro de suas respectivas casas esperando pela energia.

Liguei uma, duas, três vezes até que ouvi voz entediada do meu chefe falando “Deixe seu recado” – a primeira voz que ouvi em toda a manhã.

Eu abri o navegador e comecei a procurar qualquer informação, mas não havia nada novo desde ontem. Na verdade, minha conexão estava péssima e depois de um momento simplesmente caiu e não voltou mais. Eu tentei ligar para um colega de trabalho – o único que eu sabia o número de telefone – ele havia oferecido o número.

Ele também não atendeu, e eu comecei a me perguntar se a falta de energia estava afetando os celulares por perto, mas ele não morava perto de mim, então seria mesmo a energia?

Acendi a luz do celular e comecei a subir as escadas novamente, meu apartamento era no oitavo andar e eu não estava na minha melhor forma, minhas pernas começaram a doer no terceiro, mas foi no quarto andar que a luz do meu celular falhou e então ele desligou completamente.

“Não, não!” Eu sussurrei e tentei ligá-lo novamente e então lembrei que não o havia carregado desde o dia anterior, e, além disso, eu estava usando ele como lanterna e havia tentado ligar para meu chefe várias vezes, eu provavelmente ignorei o aviso de bateria pouca e agora era tarde demais. “Pedaço de merda,” Murmurei. Algo dentro de mim sabia que eu deveria deixar meu tom de voz o mais baixo possível... Eu coloquei o celular no bolso e comecei a subir as escadas, tentando ficar calmo.

Foi então que eu ouvi, sons de passos vindo da escada – mais precisamente atrás de mim.

Você pode achar que eu ficaria feliz de perceber que havia outras pessoas comigo, ou até achar que depois de perceber como é realmente ficar sozinho, eu ficaria grato em saber que na verdade eu não estava – e por um momento, eu tentei me fazer acreditar que era realmente isso que senti.

Os passos eram lentos, quase organizados demais. Eles ecoavam no escuro como se fosse a morte – no começo estavam delicados, mas logo eu percebi comecei a ouvir as batidas mais fortes, eles estavam pelo menos dois andares abaixo de mim.

Eu não pensei, apenas subi o resto da escadaria e encostei-me à ponta para escutar. Eles continuavam a vir, eu pensei em chamá-los, mas todo resto de instinto que tinha me disse que seria burrice – então eu tentei me convencer de que era apenas meu jeito estranho e solitário apitando na minha cabeça novamente – mas esse sentimento não era apenas o puro desejo de ficar sozinho por um momento.

Toda a lógica que eu consegui formar me dizia que nada nesse vazio deveria estar se mexendo – eu não tinha escutado nem sequer o latido de um cachorro perto do prédio – mas havia algo além de mim, e eu sabia que seja lá o que fosse isso não deveria estar lá.

Quando finalmente alcancei meu andar, parei próximo a escada. Por um momento apenas escutei. Os passos ainda estavam lá, e eles nem haviam aumentado a velocidade, mas pareciam estar mais perto. O corredor estava vazio, como eu imaginei que estaria; afastei-me da beirada da escada e pude escutar meu próprio coração acelerado, ecoando nas minhas orelhas juntamente com minha respiração ofegante.

Eu vi a última janela do corredor aberta, uma névoa cinza entrando por ela, mas ignorei e simplesmente fui em direção ao meu apartamento.

Atrás de mim ouvi os passos no corredor, ainda lentos e calmos. Eu esperei. Talvez eles tivessem ido à outra direção – mas não, os passos estavam cada vez mais altos – vindo na minha direção. Eu me virei rápido e fui em direção ao meu apartamento novamente. Eu não corri, só andei mais rápido, se eu corresse faria mais barulho, e tentei manter minha respiração normal também.

Eu alcancei meu apartamento, mas ainda pude ouvir os passos atrás de mim, e enquanto tentava pegar minha chave me dei conta de que eles estavam perto demais, e que se eu abrisse a porta eles poderiam achar meu único lugar de refúgio. Pensando rapidamente, apenas continuei andando o mais rápido que pude e assim que cheguei ao outro andar percebi que os passos estavam diminuindo, eu ainda podia ouvi-los, mas eles estavam dispersos, como se tivessem ficado confusos ou como se estivessem ido na direção errada.

Minha intenção era dar a volta e retornar ao meu apartamento, mas enquanto eu o fazia me senti meio bobo, afinal de contas, por que eu estava tão convencido de que essas pessoas me perseguiam? Eu era a única pessoa que eu havia visto hoje, mas isso era estranho, não o surgimento de outra pessoa no prédio. Alguma coisa, abdução, desastre ou sei lá o que, havia feito todas as pessoas sumirem, mas me deixaram para trás, e se eu ainda estava aqui, outras pessoas também poderiam estar. Essas pessoas poderiam ser apenas outros moradores do oitavo andar, tão confusas e assustadas quanto eu.

Quando comecei a retornar para o meu andar, ouvi os passos novamente. Eles haviam me encontrado.

Eu corri novamente para o corredor e esperei perto da escada, abrindo a porta dos degraus lentamente – todo e qualquer pensamento que tentava me convencer de que esses passos pertenciam a alguém tão assustado e confuso quanto eu deixaram minha mente – esses passos pesados, não pertenciam a alguém que se encontrava na mesma situação que eu. Eles não estavam assustados, eles tinham um propósito, e esse propósito não poderia ser bom.

Dessa vez eu alcancei meu apartamento e consegui entrar, tranquei a porta e a fechadura e encostei-me a ela, contemplando a porta um momento depois e percebendo que só aquilo não seria suficiente, coloquei uma cadeira apoiada na maçaneta. Então fui ás janelas e coloquei vários móveis próximo a elas.

Por algum tempo, nada aconteceu. E então eu os escutei novamente, não havia duvida de que os passos estavam me perseguindo, a velocidade, lenta e calma, parando vagarosamente quando se aproximaram da minha porta.

Eles pararam. Algo estava atrás da minha porta, esperando, provavelmente por algum barulho, mas sabendo sem sombra de dúvida de que eu estava lá dentro. Eu achei que senti algum cheiro vindo do corredor, algo que tivesse um cheiro... Quente. Era o único jeito de descrever, quente.

Eu esperei, e esperei. O silencio era tangível, e eu senti que o ar ao nosso redor havia ficado mais denso, assim como o resto do mundo.

Minha maçaneta começou a girar, lentamente no começo e logo depois rapidamente enquanto eu sentei lá, sem ação, minha respiração se tornara pequenos soluços, meu coração batendo tão rápido que eu não pude ignorar a pressão constante no meu peito.

Quando finalmente a insistência diminuiu, eu peguei meu notebook, que ao contrário do celular não havia descarregado, e comecei a escrever isso – o barulho na porta retornou mais três vezes, a última vez foi a mais insistente, acompanhada de socos –

Eu não sei se tem alguém aí que vai ler isso. Eu nem sei por quanto tempo mais a internet vai funcionar, eu nunca precisei de outras pessoas até hoje, mas eu definitivamente preciso delas agora!

Por um momento nessa manhã desejei não estar sozinho.


Agora não estou, e não tem outra coisa que eu deseje a não ser ficar sozinho novamente.   

22 de fev de 2015

Creepy Séries

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