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29 de ago de 2015

A Portadora do Início

Em qualquer cidade, em qualquer país, vá para qualquer instituição mental ou casa de repouso onde você possa entrar. Quando chegar à recepção, peça permissão para visitar uma mulher que se chama de "A Portadora do Início". Um pequeno sorriso atravessará o rosto do recepcionista, como se dissesse 'Seu tolo'.
Você então será levado para um longo corredor -- tão longo que você pensará que irá levá-lo para o lado de fora do prédio. Entretanto, por causa das claras violações das leis de espaço e física, este corredor irá guiá-lo para o coração da instituição. O corredor estará sempre silencioso, mesmo que você tente fazer qualquer barulho. Gritos morrerão antes de saírem de sua boca, e passos serão abafados. Ao invés de falar, seu guia apontará uma porta.
Atrás desta, estará uma sala confortável, preenchida com um perfume prazeroso, porém indefinido. No centro desta sala, haverá uma linda mulher, com seus braços em posição de como se carregasse alguma coisa, embora estejam vazios. A sala será tão silenciosa quanto o corredor que te levou até ali, até, então, que você faça uma única pergunta: "Por que eles foram separados?".
A mulher, então, irá lhe explicar, em detalhes excruciantes, todo evento horrível na história. Toda luta. Toda guerra. Todo estupro. Todo assassinato. Nenhum pedaço da história do universo escapará de suas orelhas. Quando ela terminar, tudo ficará silencioso, e você estará livre para ir embora. Depende de você o que fazer com toda essa informação.
Essa mulher é o objeto 2 de 538. Depende de você se eles devem se unir ou não.

25 de ago de 2015

A Garota na Janela

Novo ano, escola nova. Nada é realmente novo pra mim, pois minha família se muda muito. A escola parece bem normal, assim como os alunos e os professores.

Pelo menos eu pensava que era.

Na escola há esse único corredor - que tem a biblioteca e algumas salas raramente usadas - que me faz sentir muito desconfortável, até mesmo antes que eu comecei a ouvir rumores sobre ele. Eu sempre tento afastar essa sensação e dizer a mim mesmo que eu só estou paranoico, até que, claro, descobrem que um dos mais famosos rumores era verdade: há uma garota que você pode ver de vez em quando que encara o corredor pela janela que a porta da biblioteca tem. Ninguém sabe quem ela é, mas várias teorias circulam por aí. Na verdade, parece que existem tantas teorias quanto alunos na escola.

A primeira vez que eu a vi, quase infartei. Ela é exatamente como as pessoas a descrevem: uma garota loira vestindo um casaco com capuz, que cria uma sombra até a metade de seu rosto.

A parte de baixo de seu rosto indica que ela encara o corredor sem expressão alguma nos olhos, mas eu posso sentir como se seus olhos criassem buracos em minha pele. Meu corpo todo estremeceu e eu corri pra próxima aula.

Algumas semanas depois, já tinha me acostumado a vê-la. Seu olhar não surtia mais efeito em mim, e muitas vezes eu nem lembro que ela está lá. Ela também não se mexeu um centímetro desde a primeira vez que a vi, e eu estou convencido de que ela é realmente inofensiva.

Então agora estou indo para minha próxima aula, e estou passando pelo corredor dela.

-Você não quer se juntar a mim?

Quase ninguém vem nesse corredor a menos que a próxima aula desse alguém seja ali, então eu soltei um pulinho e virei de costas. Não havia ninguém lá, exceto a garota da janela, então eu descartei aquela ilusão e continuei andando.

-Eu estou tão sozinha...

Me virei de novo. Ainda não tinha ninguém naquele corredor, só que, agora, havia um sorriso grande na boca da garota da janela. Senti os pelos no meu pescoço se arrepiarem, mas continuei a caminho da sala onde era minha próxima aula.

-Pra onde você vai?

A voz parecia ficar mais irritada comigo. Eu fui até a biblioteca e olhei diretamente pro lugar onde eu pensava que ficavam os olhos dela.

-O que você quer? - eu perguntei, irritado, batendo o lado da minha mão no vidro.

-Está tão sozinho aqui, não quer se juntar a mim?

Bem naquela hora, ouvi a voz de uma professor atrás de mim, que dizia:

-Vá pra sua sala, garotinha!

Virei de costas e olhei para o professor por um segundo antes de voltar a andar pelo corredor. Assim que ele voltou pra sua sala, eu voltei sorrateiramente para a janela. Ela ainda estava lá. Ainda estava sorrindo.

-Vamos, podemos ser amigos - ela disse.

-Eu prefiro morrer - retruquei, me arrependendo quase que ao mesmo tempo, porque percebi que isso poderia realmente acontecer.

-Não, você não prefere.

Sua voz soou como um rosnado. Ela levantou suas mãos até a janela e me surpreendeu ao fazê-las atravessarem o vidro e agarrarem meu pulso.

-Venha. Junte-se a mim. Junte-se a mim. Junte-se a mim.

Junto com cada frase, ela puxa meu braço em sua direção, fazendo-o cada vez mais forte a cada puxada.

- Junte-se a mim. Junte-se a mim. Junte-se a mim.

O capuz que ela vestia caiu pra trás, revelando buracos pretos no lugar onde seus olhos deveriam estar. Soltei um grito e puxei meu braço o mais forte que podia.

-Pare de resistir. Junte-se a mim. Junte-se a mim.

Nesse ponto, ela fazia sons que pareciam algo como um gato morrendo, e sua voz ficava apenas mais horrenda a cada vez que repetia suas palavras.

-Vamos, pare de lutar.

Eu continuava a gritar e a me debater com toda a minha força, mas tudo ficou preto antes que eu conseguisse me soltar.

Quando a escuridão vai embora, eu me vejo de pé na biblioteca, olhando pra fora da janela. Eu pareço não conseguir sair do lugar, mas também não sinto vontade de fazê-lo por algum motivo.

Pelas horas que passaram, um punhado de crianças passaram pela biblioteca. Nenhuma delas pareceu me notar, exceto por uma garotinha loira de olhos escuros, que parou e olhou pra mim.

A boca dela formou um grande sorriso.




P.S.: Clichê? Sim. Boa? Também. Bjs

24 de ago de 2015

Eisoptrofobia

Espelhos nos rodeiam desde o começo da civilização. Mesmo antes de inventarem o primeiro, já podíamos ver nossos próprios reflexos na água. Não importa a ocasião, espelhos refletiriam qualquer pessoa e qualquer coisa. Eles refletem até mesmo os rostos que pertenceram a malucos, assassinos e meliantes.

No meio da noite, eu acordei completamente coberta de suor – pela terceira vez na semana. Não conseguia dormir mais, pensando na criatura que queria me machucar e machucar meus filhos. Eu vivia em constante medo, e ninguém poderia me ajudar, nem a polícia, muito menos um psiquiatra. A coisa mais terrível é que eu não podia falar a verdade pra ninguém, e se eu o fizesse, acabaria trancada em um manicômio. Eles tirariam minhas crianças de mim e achariam outra família para cuidá-los... O que no final, seria melhor do que viver com uma mãe esquizofrênica.

Tudo começou há mais ou menos um ano atrás, quando meu marido foi encontrado morto em um quarto de hotel que ele utilizou numa viagem de negócios. Ele costumava viajar sempre, e nunca se passou pela minha cabeça que algo tão horrível pudesse acontecer. Eu ainda lembro-me da manhã que recebi a ligação, ainda me lembro daquela voz que compartilhou essa notícia comigo.  Eles o encontraram em frente a um espelho quebrado com um pedaço do mesmo em suas mãos; sua garganta estava cortada, e havia alguns cortes no seu corpo. A polícia pensou que ele havia feito aquilo consigo mesmo porque a porta estava trancada por dentro... No entanto, eu sabia que ele não faria aquilo. Ele nunca nos deixaria, e mesmo se quisesse cometer suicídio, por que ele cometeria de forma tão horrível?

Nos primeiros meses logo após sua morte eu nunca imaginei que alguém pudesse me ameaçar. Claro, eu estava depressiva e minha vida se tornou muito difícil, mas nada de estranho havia acontecido – até aquela noite, quando um medo inexplicável tomou conta da minha mente –.

Eu acordei e fui ao banheiro quando vi algo estranho refletido no espelho enquanto eu passava na frente dele.

Havia algo errado com o meu reflexo.

Poderia ter sido apenas uma ilusão de ótica, o que não é estranho quando você tenta enxergar as coisas no escuro... Porém, quando eu me aproximei do espelho, vi algo que fez meu coração parar na boca.

Não era eu no reflexo – na verdade, parecia com uma versão grotesca de mim. Era corcunda e o pescoço parecia grande e flexível demais. Algumas partes do rosto daquilo pareciam cobrir minhas feições, e se eu olhasse bem, poderia ver meu rosto distorcido de uma maneira misteriosa. A coisa do espelho se moveu, e o movimento não parecia humano.

Assustada pra caralho, eu tentei ver as coisas pelo modo racional e decidi ligar as luzes.  

A coisa desapareceu e no espelho, eu podia ver minha forma “verdadeira”, mesmo que bastante assustada. Eu disse para mim mesma que havia sido uma ilusão, uma brincadeira da falta de luz e da minha visão... Mas, na manhã seguinte, quando lembrei do que havia visto, simplesmente não podia mais chegar perto de espelho algum, ou pelo menos nunca ficaria sozinha em uma sala onde pudesse ver meu reflexo.

Agora imagine, seu trabalho exige que você conheça muitas pessoas, que você se importe com a forma de se vestir, e a pequena ideia de se olhar no espelho já te deixa louca.

A pior parte era que eu não estava só com medo de que algo acontecesse comigo, mas com meus filhos também. Eu disse para eles não olharem no espelho quando estão sozinhos, e claro, eles deram risada e disseram que eu estava ficando louca. O que eu poderia fazer? Eu não sabia nada sobre aquela criatura, e eu nem sabia se era real. Minha racionalidade tentava me convencer que aquilo nem existiu, que não seria possível existir de seja lá qual for o ponto de vista, mas eu não conseguia me livrar da ideia de que atrás de um espelho teria algo ou alguém me esperando cometer apenas um pequeno erro fatal.

Uma noite minha filha e as amigas dela decidiram fazer uma festa do pijama. Elas fizeram algumas brincadeiras idiotas, com algo relacionado à Bloody Mary, ou seja lá qual for o nome... Minha filha tinha que ficar no escuro, parada em frente ao espelho. Ela sabia que eu havia proibido aquilo e mesmo sem acreditar em mim, dessa vez ela hesitou sem motivo aparente. As amigas dela riram e disseram “Sua mãe não está aqui... Você pode fazer o que quiser...”

Ela concordou.

Até hoje não sei os mínimos detalhes do que aconteceu, pessoas diferentes me disseram coisas diferentes, mas em algum momento da festa, ouviram ela gritar e quando finalmente a alcançaram, ela estava sentada no chão do banheiro com diversas queimaduras nos braços e ombros.

Ela foi levada ao hospital e só acordou na manhã do dia seguinte. Médicos não sabiam o motivo daquilo, assim como os policiais que investigaram a morte do meu marido. Com lágrimas nos olhos eu a levei para casa sem a menor ideia do que havia acontecido. Tudo que eu sabia é que ela estava diferente.

No começo, pensei ter sido uma consequência dos acontecimentos traumatizantes, e os médicos me disseram a mesma coisa.

Mas depois de um tempo me convenci que havia algo verdadeiramente errado.

Minha filha nunca foi o tipo que falava demais, mas depois do acidente ela se tornou mais fechada ainda. Eu tentava falar com ela, mas a única coisa que ela fazia era me insultar. Depois de um tempo, descobri que ele havia faltado diversas aulas e que um dos vizinhos a viu torturando animais. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo com ela, algumas pessoas me disseram para ir ao médico e outras me falaram sobre padres e exorcismos, mas eu sabia que não tinha nada a ver com doenças ou religião.

Eu comecei a pensar que algo havia matado minha filha e tomado o lugar dela.

A ideia em si era absurda e eu sabia disso. Ao mesmo tempo, meu medo começou a ficar maior.

Uma noite a encontrei próxima ao quarto do irmão com uma tesoura na mão, eu perguntei o que ela pretendia fazer, mas ela apenas sorriu. Eu peguei a tesoura das mãos dela e a mandei dormir, mas ela me atacou e me bateu. O soco dela era extremamente forte, especialmente para uma garota da idade dela. Foi aí que minhas duvidas desapareceram e só um pensamento pairava na minha mente.

Meu filho era três anos mais novo do que ela eu temia por ele. Decidi que se essa coisa havia tomado um dos meus filhos, não o deixaria machucar o outro. Só uma mãe louca deixaria o filho sozinho e só uma mãe mais louca ainda viveria no mesmo teto que uma criatura sedenta de sangue... Então, um dia eu peguei meu filho e nós viajamos até a casa da minha mãe. Eu disse a ele que a visitaríamos por apenas alguns dias e que a irmã dele não iria junto porque ela precisava estudar para provas. Eu menti descaradamente, mas foi para o bem.

Assim eu pensei.

Passamos alguns dias a salvo; eu não conseguia superar o medo que sentia, e que agora não estava mais sozinho, culpa também me consumia incansavelmente. Várias e várias vezes o pensamento de que minha filha precisava da minha ajuda voltava até minha mente. Aquilo estava errado, não havia nenhum monstro no espelho e deixar minha filha sozinha era um erro indesculpável. Eu precisava ter certeza de que eu havia feito a coisa certa.

Um dia eu andei até um dos espelhos da sala e o encarei. Sim, eu lembrava da minha aparência, óbvio. Mas não havia olhado no espelho por pelo menos um ano. Minha pele estava esquisita e minhas mãos estavam trêmulas – eu senti algo estranho, algo... Fora do comum. “Não tenho nada a temer, não tenho nada a temer.” Sussurrei.

Eu estava quase chorando, minha filha poderia estar sendo vítima de um ataque de pânico e talvez fosse minha culpa, eu não havia prestado tanta atenção nela... Ela estava em uma idade tão difícil! Eu odiava aquele medo irracional e eu me odiava por desistir de tudo. Tudo que eu queria era voltar, achá-la onde quer que ela esteja e abraçá-la, mesmo sabendo que ela poderia não me perdoar.

De repente eu lembrei que a criatura só aparecia quando não havia luz alguma e esse pensamento me deixou desnorteada, eu precisava ter certeza, eu precisava me ver no espelho durante a noite.

Acendi uma vela na frente do espelho e conferi para que ninguém me escutasse, olhei para meu reflexo nos olhos, meu rosto estava coberto de sombras e meus olhos estavam completamente negros, mas era eu. Sempre eu. Eu tentei olhar para outro ângulo e percebi que não podia mover minha visão dali... Eu parecia estar hipnotizada.

Meu reflexo começou a ficar mais e mais desfigurado, o pescoço parecia ainda maior e as costas ainda mais tortas; os dentes pareciam crescer na velocidade da luz e eu só queria correr, mas ainda parecia paralisada. Eu queria gritar, mas minha garganta parecia tapada. A criatura colocou os braços para fora e eu podia ver a chama da vela se mexer.

Os dedos daquela coisa tocaram meu braço e uma queimadura fez com que eu despertasse da minha hipnose. Eu gritei e balancei os braços, mas ele me mantinha num “abraço” apertado. Alguma coisa me empurrou para frente e eu pude ver eu mesma caindo em um espaço vazio e gigantesco. Eu não tinha mais poder sobre meu corpo e eu podia me ver andando na direção de uma luz que  a princípio pensei estar vindo da vela. Eu encarei a luz, e ela me engoliu por inteiro.

Eu era nada. Nada havia sobrado de mim. Agora eu posso somente pensar, pensar sobre minha vida destruída. Pensar sobre as coisas horríveis que essa criatura que carregava meu rosto e falava com minha voz podia fazer com meu filho. Mas eu tenho esperança, esperança de que algum dia você entre em um banheiro escuro e olhe para si mesmo nos olhos.


Lembre-se de que você estará olhando pra mim.

23 de ago de 2015

O Fantasma da Guerra

Há algum tempo, um comandante aposentado que lutara na guerra do Vietnã foi encontrado morto em sua própria casa. Ele estava na cozinha, e parecia ter cometido suicídio com seu próprio revólver. A cozinha estava tão cheia de terra e pegadas que parecia que mais de 100 pessoas passaram por lá no momento em que ele se matou. Todas as pegadas eram estranhamente similares às botas que o exército tinha na época em que ele havia lutado. As autoridades locais concluíram que se tratava de um caso de trauma de guerra. Alguns acreditam que essa não é a completa verdade. A principal evidência para crerem que as autoridades estão erradas é um bilhete que o veterano segurava, que aparentemente havia sido escrito com um velho datilógrafo. O papel continha:

"Os nomes e os rostos que estão agora perdidos estão voltando para assombrar você. Seu destino estava nas tuas mãos e você falhou. Eles perderam todos os seus presentes mais preciosos por causa de um objetivo fútil. A missão que lhe foi dada não foi cumprida.

O Fantasma da Guerra voltou. Ele traz consigo seu exército formado por todos os soldados caídos. Ele traz consigo o som das bombas. O áspero cantar das balas que cortam o ar. O calor da batalha, a terra e o cheiro de morte.

Você não é o primeiro e não será o último. Você é o próximo. O Fantasma da Guerra não tem rosto. Ele está esperando. Ele sempre andará ao teu lado. Ele usará o momento quando menor for sua atenção. E não vai ser um bom dia, comandante.

Ele te estende a mão, ele te levanta do chão. Ele te dá sua arma, a arma dos militares nobres. Você a aponta para sua própria testa. Espera para chegar perto de seus amigos que caíram em batalha. Procura paz em seu tiro final. Aperta o gatilho. O Fantasma da Guerra voltou. Hoje à noite, ele volta mais uma vez. Ele volta para ver você."

21 de ago de 2015

O Portador do Fim

Em qualquer cidade, em qualquer país, vá a qualquer manicômio ou moradia de reintegração social que você pode visitar. Quando você chegar à recepção, peça para visitar alguém que se autointitula “O Portador do Fim" . Com uma expressão de criança, o receio vem sobre o rosto dos trabalhadores, você será levado para uma cela no prédio. Ele estará em uma seção oculta e profunda do edifício. Tudo o que você vai ouvir, é o som de alguém falando sozinho ecoar pelos corredores. É uma língua que você não vai entender, mas sua alma sentirá um medo indizível.
Se a voz parar em qualquer momento,  PARE  DEPRESSA  diga em voz alta “Eu estou apenas de passagem, eu desejo conversar."
Se você ainda ouvir o silêncio, fuja. Saia, não pare para nada, não vá para casa, não fique em uma pousada, basta manter-se em movimento, e dormir onde seu corpo cair. Você vai saber na parte da manhã se você escapou.
Se a voz na sala retornar depois de pronunciar essas palavras, continue. Ao chegar à cela tudo o que você vai ver é uma sala sem janelas, com uma pessoa no canto, falando uma língua desconhecida, e segurando alguma coisa. A pessoa só irá responder a uma pergunta. “O que acontece quando todos eles se unem?"
A pessoa, então, olhará em seus olhos e responderá a sua pergunta em detalhes horripilantes. Muitos enlouquecem nessa mesma cela, algumas desaparecem logo após a reunião, e alguns apenas nos finais de suas vidas. Mas a maioria faz a pior coisa: olha o objeto nas mãos da pessoa. Você quererá também. Esteja avisado de que se você fizer isso, sua morte será uma crueldade implacável e horrorosa.
A sua morte será naquela sala, pelas mãos dessa pessoa.
Aquele objeto é  de 538.
Eles nunca deverão se unir.  Nunca.

Jack Feliz

Olá. Posso perceber que meu sorriso te deixa confuso. Bem, deixe-me contar a história do porquê de eu estar tão feliz. Meu nome é Jack. Eu, pelo menos, me chamo de Jack. Não lembro que nome meus pais me deram. Eu cresci numa cidade grande, até meio encardida. Quando criança, eu morava com meus pais num apartamento extremamente sujo, cheio de mofo e baratas.

Eu passava grande parte do meu tempo num beco, brincando com caixas e gatos de rua. Não lembro bem da minha casa, exceto por um pequeno buraco que ficava atrás da minha cama - era onde eu me escondia enquanto meu pai e minha mãe brigavam e se batiam. Não era uma vida muito prazerosa, mas não era de todo ruim. Até que um dia, mamãe foi até a cozinha, pegou uma espingarda e atirou na cabeça do papai. Depois, olhando pra mim, ela colocou o cano da arma embaixo do queixo e apertou o gatilho.

Eu saí correndo do lugar com manchas de sangue nas roupas, correndo nas ruas sujas daquela cidade, até que minhas pernas ruíram logo abaixo de mim. Eu entrei num beco e deitei atrás de uma lixeira. Os dias que seguiram foram horríveis; eu ficava sentado na tampa daquela lixeira, enquanto lentamente morria de fome e pessoas bonitas passavam pela frente daquele lugar escuro onde eu estava. Aquilo foi muito doloroso. Finalmente, quando as cores começaram a virar um borrão e a dor começava a ir embora, alguém me agarrou e me colocou de volta nas ruas da cidade. Eu vi um rosto enrugado, olhos azuis brilhantes enquanto minha mente flutuava a caminho do esquecimento...

Seu nome era Madame Morkavi. Eu acho. Ela me carregou pra seu trailer e praticamente me trouxe de volta à vida. Durante 10 anos ela me deu comida e me ensinou a viver nas ruas como roubar, como tirar coisas do bolso das pessoas sem elas perceberem, como intimidar pessoas, até mesmo como matar. Eu me tornei muito bom em tudo isso. Ela tinha um pequeno negócio durante o dia, onde trabalhava como cartomante, e eu me escondia atrás da cama enquanto assistia às pessoas entrando na sala cheia de fumaça de Morkavi vendo seus dedos enrugados apontarem para as cartas. Mas, à noite, ela me tirava da cama e saíamos por aí, como algum tipo de aventura...

Eu vivia na noite. Segurando um saco e uma lanterna, eu ficava quieto atrás dela enquanto invadíamos casas e prédios. Saíamos de lá furtivamente com nossos sacos praticamente transbordando com dinheiro e bens. De vez em quando, os lugares onde íamos me deixavam muito nervoso, mas Madame Morkavi me disse que nunca seríamos pegos, pois sua magia cigana abriria as portas pra nós e nos diria onde as pessoas guardavam seus objetos de valor. Uma vez, ela esteve errada. Certa noite, numa garagem, um homem imenso chegou despercebido atrás dela, derrubando-a no chão e socando ela repetidamente. Achei uma chave de roda e bati na cabeça dele até que pequenos pedaços cinzas saíram de lá. Aquela foi a primeira vez que matei alguém. Morkavi me disse que havíamos sido pegos porque o homem era um satanista que bloqueou seus feitiços...

Então, no meio do inverno, ela pegou uma doença terrível e, lentamente, sua vida se extinguia. Eu era o único do lado de sua cama em seu leito de morte. Respirando fortemente, ela me mandou chegar mais perto. Num sussurro me disse para fazer um pedido qualquer que eu quisesse e que esse pedido se tornaria realidade. Eu pensei por um momento, e finalmente respondi a ela: eu pedi que eu sempre tivesse tudo o que precisasse. Ela colocou a mão na minha testa e murmurou um feitiço misterioso. Seus olhos se fecharam.

Mais uma vez, eu estava sem ter onde morar. Mas, dessa vez, eu sabia sobreviver. Por mais 10 anos, eu mendigava e roubava para sobreviver. Algumas vezes eu matava. Uma força estranha parecia me proteger; toda vez que eu estava morrendo de fome, um caminhão de comida batia perto de mim. Toda vez que eu estava com frio, alguma coisa queimava perto de mim. Toda vez que eu estava sendo atacado, minha faca encontrava a artéria principal do atacante. Eu estava contente sabendo que eu sempre sobreviveria. Mas eu não estava feliz. Algo ainda estava faltando, havia um buraco cheio de pesar no meu coração...

Eu tive uma epifania num fim de tarde de verão enquanto andava por uma vizinhança que eu não conhecia. Ao dobrar a esquina, vi uma casa vermelha diferente de todas as outras. Na verdade, não foi bem a casa que me deixou admirado. Foi o que estava dentro dela. Atrás de uma grande janela, um homem e uma mulher lindos riam e se beijavam. Eles estavam tão felizes... O rosto daquela mulher me lembrava minha mãe, de quando ela olhava pra mim e sorria e me levantava em seus braços. Eu percebi o que faltava em minha vida. Uma família. Eu queria uma família. Não, eu PRECISAVA de uma família...

Me lembrei das últimas palavras de Madame Morkavi e, confiante, fui até a porta do casal, com a certeza de que eles aceitariam se tornar meus pais. Bati na porta e esperei na entrada da casa, sorrindo, esperando que eles me dariam as boas vindas e me deixariam entrar de braços abertos, me aceitando completamente como seu filho. Mas, quando a mulher abriu a porta, ela sufocou um grito e correu pra dentro. O homem saiu da casa e começou a gritar comigo. Ele tirou uma arma do bolso e a apontou em direção ao meu rosto. Eu saí correndo e eles bateram a porta atrás de mim.

Eu comecei a chorar, confuso e sozinho. Por quê o feitiço de Madame Morkavi tinha falhado? Por quê me negaram a única coisa que me faltava para que eu pudesse ser feliz? Eu soluçava dentro de uma valeta ao passo que o sol caía atrás da casa vermelha. Quando a lua apareceu, eu me lembrei de uma noite, muito tempo atrás, em que a magia da falecida não funcionara. Eles eram adoradores do diabo! Sim! Isso explicava o porquê de eles não terem me abraçado e nem terem me deixado entrar na casa. A magia dela nunca funcionaria contra eles. Era realmente muito triste que as primeiras pessoas que eu realmente amei na vida fossem do mal, mas eu sabia bem o que fazer.

Eu agachei na valeta e fiquei observando a casa até que tarde da noite. Eu os vi subindo as escadas. A mulher escovava os dentes. Eles se beijaram mais uma vez e foram dormir. De onde eu estava, vi a última luz da casa se apagar. Esperei algumas horas e andei sorrateiramente na noite. Eu circulei a casa, fazendo barulhinhos ao tentar abrir as portas e tentando levantar as janelas. Achei que estava trancado do lado de fora, até que, na luz da lua, vi uma pequena janela aberta que dava no porão da casa. Abençoando Madame Morkavi, eu me arrastei pela abertura da janela, caindo no quarto escuro. Subi as escadas para a elegante sala principal da casa e, enquanto procurava o caminho para o quarto, parei na cozinha por um momento. Eles tinham fotos deles penduradas na parede do corredor. Eu imaginei amargamente o quão mais felizes eles estariam se eu estivesse nessas fotos junto com eles. Mas era tarde demais agora...

Eles dormiam, agarrados debaixo dos cobertores, enquanto eu abria a porta. Passei pela fraca luz da lua que penetrava o quarto através da janela e caí sobre suas cabeças. O homem começou a se mexer. Rapidamente, eu pulei e enfiei uma faca de carne no seu olho com tanta força que seu crânio rachou. A mulher acordou e soltou um grito estridente. Eu peguei uma almofada e segurei-a contra sua face enquanto ela resistia e tentava escapar. Finalmente, ela se acalmou. Os satanistas haviam morrido, o que queria dizer que o feitiço de Madame Morkavi estava salvo.

Eu me diverti muito aquela noite. Andei pela casa, assisti TV, peguei comida da geladeira, e até mesmo limpei a faca e coloquei-a de volta na gaveta, como uma pessoa normal. Coloquei as roupas deles e fingi que era um homem de negócios atrasado pra uma reunião, ou uma dona de casa, limpando as mesas e tirando a poeira das janelas. Finalmente fiquei cansado e andei de volta pra cama. Me instalei entre os corpos dos dois e puxei as cobertas ensanguentadas até a altura do meu peito. Colocando meu braço sob a mulher, acabei dormindo muito bem. Na manhã seguinte, eu não conseguia parar de sorrir. Coloquei minhas velhas roupas e saí andando - não, dando pulinhos - da casa. Eu havia preenchido o vazio em meu coração. Eu estava feliz. Daquele dia pra cá, eu vivi feliz nos becos, admirando as maravilhas que são o sol e a terra, encarando as cores brilhantes das pessoas que passam na frente da minha casa, no beco. Só que, durante a noite, eu me sinto sozinho...

Então, eu ando por uma vizinhança desconhecida, vou às escondidas até as janelas e observo as pessoas que moram nas casas. Ajeito minha camiseta e bato na porta, sorrindo. A maioria das pessoas simplesmente fecha a porta na minha cara. Nesse caso, eu espero eles dormirem e, bom, você sabe.

Então, se, por acaso, você ouvir uma batida na sua porta tarde da noite, acho que você deve abrir a porta. Eu sou um cara bonzinho. Aposto que podemos nos divertir juntos. Ou, talvez, você me veja vagamente na sua janela, encarando você. Sorrindo. Você pode me ver? Eu posso ver você.




P.S.: sim, eu sei que hoje não é meu dia de postar, mas resolvi dar uma animada nisso aqui, porque tá parado desde terça :B espero que tenham gostado!

19 de ago de 2015

Logo Abaixo

Você tinha medo de olhar embaixo da cama quando criança?

Bem, eu tinha. Eu tinha tanto medo de olhar lá que eu evitava fazê-lo a qualquer custo.

Eu sempre pensava que mãos de sombra pudessem sair de lugares escuros, assim como debaixo da cama. Elas saem de lá quando você está sozinho, pegam seus pés e te levam com elas.

Seus gritos são inúteis porque não tem ninguém por perto que possa te ouvir, muito menos te ajudar.

Eu disse que tinha medo disso, mas não tenho mais.

Todo adulto precisa superar seus medos de infância, certo? Então eu fui confrontar o meu.

Não tenho mais medo disso. Tenho que admitir que fiquei apavorado quando fui confrontá-lo.

Não tenho mais medo; especialmente porque elas me levaram consigo e me transformaram numa delas.

Estamos juntas agora, procurando vítimas novas, e podemos facilmente farejar as que têm esse medo ou as que sabem sobre nós!




Melhor não olhar embaixo da cama essa noite...

18 de ago de 2015

A Garota das Dez Horas

Certo tempo, houve um homem chamado Gregory, mesmo que ele preferisse ser chamado apenas de Greg. Ele era uma pessoa quieta com uma imaginação ativa mas com uma séria tendência a fugir de confrontos. Por causa disso, ele não conseguia interagir muito bem com outras pessoas e se tornou um pouco recluso.

Porém, toda noite, quando o relógio batia 10 horas, Gregory sofria uma mudança, graças a uma garota misteriosa que aparecia em sua porta toda noite sem medo algum. Toda vez que ela chegava, ele sorria e sentia todos os seus problemas irem embora quando pegava sua mão e a levava para dentro de casa.

A garota nunca lhe disse nome algum, mas ele também não perguntava; era como se ele tivesse a conhecido durante toda sua vida e confiasse nela como ninguém. Os dois caminhavam pelas ruas rindo do mundo ao seu redor.

De vez em quando, as pessoas paravam pra olhar. O tímido Gregory sentia uma raiva inexplicável o tempo todo - como será que eles se olhavam daquele jeito? Malditos loucos. Então ele gritava para as pessoas e as enxotava, e algumas vezes isso surtia o efeito errado, despertando nas pessoas uma vontade de brigar.

A garota se assustava, o que fazia Gregory perder o controle, como se estivesse bêbado, atacando as pessoas que ousavam estragar sua noite. Algumas vezes, ele acabava até mesmo passando a noite numa cela, preso. Mesmo assim, dentro da cela, sua amiga ficava com ele até o sol nascer. Ele nunca perguntou como ela fazia aquilo (nem por quê); era como se o mundo não pudesse vê-la, mas Gregory sabia que ela real.

Quando o sol nascia, Gregory finalmente sucumbia à exaustão e fechava seus olhos. Quando acordava, a garota desaparecia e ele voltava para seu mundo de solidão, evitando conflito o máximo possível. Evitando pessoas até que o relógio batia 10 da noite e o ciclo se repetia.

O que Gregory não sabia era que ele era um irmão, mesmo que sua irmã tivesse morrido pouco depois de nascer. Seus pais nunca lhe contaram sobre esse trágico acontecimento e ele foi criado como se fosse filho único.

Seus pais não tiveram nem tempo para dar um nome à criança morta.

16 de ago de 2015

[DIGNÍSSIMO SENHOR SIMPLÓRIO] Episódio 6: O Relógio

Confiram agora o sexto episódio da série de nosso querido Digníssimo Senhor Simplório. Na história de hoje, ele irá narrar pra vocês um conto escrito por Julio Cortázar, que apesar de curto, fará com que vocês repensem sobre tudo que já conhecem hoje...

Preparem seus fones de ouvido e apaguem as luzes, pois será uma experiencia bastante "agradável".

Confiram! Se gostarem, não se esqueça daquele like maroto e comentem ai embaixo o que acharam \o/

Performance e Edição: Sr.Simplório


Link para a história original:

15 de ago de 2015

[CREEPY VIDEOS] Jogando Hotel Mario 6 - O Retorno do Encanador!

Adivinhem quem voltou?! Isso mesmo, it's-A-Me, Mario! Baseado no famoso Hotel Mario pro Philips CD-I, será que esse jogo conseguirá superar os outros jogos macabros do Mario no quesito macabro, assustador e bizarro?

Confiram! Se gostarem, não se esqueçam daquele like maroto e comentem ai embaixo o que acharam \o/


Link para download do jogo: